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173 reviews by:
rolandosmedeiros
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Não creio no fenômeno, que volta e meia aparece nos grupos de literatura, da ressaca literária. Acho, e é o meu caso, que tem muito mais a ver com o quão ocupado você está no momento com outras coisas — físico, psicologicamente, ou ambos. Nesses últimos dois meses li pelas beiradas, sempre que tinha oportunidade, dando sequência a algumas leituras em progresso, mas avançando pouco, e não terminando nada. Ainda sim, me mantive lendo; nada de ressaca.
Agora que tudo voltou, mais ou menos, aos trilhos no meu cotidiano, a provação que tive de passar — um pouco de exagero de minha parte, porque foi menos exigente do que pensava —, para coroar tudo, foi esse poema narrativo do Shelley, setecentos versos, e trinta e duas páginas, na minha edição. Eu tinha ele salvo aqui (um poema legalzinho do Thomas Wade [1805-1875] apontava para cá, e eu já tinha lido os dois famigerados poemas do Shelley: Ode to the West Wind e Ozymandias) e o considerava um desafio que valia a pena enfrentar; desafio para mim, especialmente, que leio pouca poesia.
Digo, logo, que foi bastante agradável; e acabou que o teste foi menos pelo conteúdo e mais para o meu inglês, esse longo poema de dezenove.
O cenário do Poema é a Veneza, em meio a vias aquáticas, vilarejos de pescadores, mansões, viagens de gôndola e pores do sol. A narração acompanha o encontro entre dois amigos (Julian e Maddalo — que representam, respectivamente, Shelley e Lord Byron), dois ingleses, de opiniões diferentes e diferentes maneiras de encarar a vida. O primeiro é o visitante, o segundo é o conde que adotou a Itália como lar e recebe, sempre que pode, o amigo Julian por lá.
O ponto central, como o título indica, é a conversa entre os dois, que passa por temas como o amor, a filosofia, a moral e a loucura. Mesmo feito só de conversa e descrição, nunca chega a entediar porque, a forma do poema, com todos os seus setecentos versos em dísticos rimados, mantêm um ritmo e um fluxo de leitura agradável. Exemplo de uma seção que gostei muito, é a primeira visita do Julian e o encontro com a filha, uma menina pequena, do amigo. Ela, primeiro com uma vergonha inicial de tentar qualquer brincadeira com ele, por não o vê há muito, e depois "cansando a timidez inicial", percebendo que os seis meses que passaram sem se ver mudou muito mais ela do que ele. Toda a cena desenrolada pela voz interessante do narrador e pelas rimas e ritmo imprimidos pelo Shelley:
A parte narrativa do poema é levada bem a sério, e há muitas descrições da Veneza naquele tempo (1800~1815). O que é agradável e legal de ler. A metade final do poema, porém, não me pegou. É a visita dos dois amigos a um antigo poeta e homem bem-sucedido que agora, louco, está internado em algum tipo de asilo. A atmosfera e o cenário é até que interessante: Julian e Maddalo, pela Veneza agora chuvosa, viajam até a mansão imponente que abriga o louco, e a conversa vai longe, dando voz ao homem para contar sua história: de como o amor o pôs na miséria, e como só o caminho da verdade é o que vale a pena ser seguido. O homem possibilita mostrar aos dois amigos uma terceira visão do amor e do que ele é capaz, remetendo a uma discussão que ocorre antes no poema.
A gente avança no tempo, até uma outra visita do Julian ao amigo, que dessa vez está de viagem. A filha, agora crescida, é quem dá a notícia de que Maddalo não está. É ela, agora, quem toma conta da mansão e abriga o Julian. É ela, também, quem conta o desfecho da história do homem louco, e o poema termina nesse momento. Com um desfecho enigmático; um final aberto.
Sinceramente, eu não consigo apontar para um tema ou um argumento forte e central do poema, além da questão do amor, da racionalidade e da irracionalidade; aliás, nenhuma posição me ficou muito clara e nem a conclusão com relação ao velho. Se a intenção era só essa, mostrar os três pontos de vista, ele fez bem. Foi, no fim, uma boa experiência, e me deu fôlego para voltar a ler umas coisitas novas.
Agora que tudo voltou, mais ou menos, aos trilhos no meu cotidiano, a provação que tive de passar — um pouco de exagero de minha parte, porque foi menos exigente do que pensava —, para coroar tudo, foi esse poema narrativo do Shelley, setecentos versos, e trinta e duas páginas, na minha edição. Eu tinha ele salvo aqui (um poema legalzinho do Thomas Wade [1805-1875] apontava para cá, e eu já tinha lido os dois famigerados poemas do Shelley: Ode to the West Wind e Ozymandias) e o considerava um desafio que valia a pena enfrentar; desafio para mim, especialmente, que leio pouca poesia.
Digo, logo, que foi bastante agradável; e acabou que o teste foi menos pelo conteúdo e mais para o meu inglês, esse longo poema de dezenove.
O cenário do Poema é a Veneza, em meio a vias aquáticas, vilarejos de pescadores, mansões, viagens de gôndola e pores do sol. A narração acompanha o encontro entre dois amigos (Julian e Maddalo — que representam, respectivamente, Shelley e Lord Byron), dois ingleses, de opiniões diferentes e diferentes maneiras de encarar a vida. O primeiro é o visitante, o segundo é o conde que adotou a Itália como lar e recebe, sempre que pode, o amigo Julian por lá.
O ponto central, como o título indica, é a conversa entre os dois, que passa por temas como o amor, a filosofia, a moral e a loucura. Mesmo feito só de conversa e descrição, nunca chega a entediar porque, a forma do poema, com todos os seus setecentos versos em dísticos rimados, mantêm um ritmo e um fluxo de leitura agradável. Exemplo de uma seção que gostei muito, é a primeira visita do Julian e o encontro com a filha, uma menina pequena, do amigo. Ela, primeiro com uma vergonha inicial de tentar qualquer brincadeira com ele, por não o vê há muito, e depois "cansando a timidez inicial", percebendo que os seis meses que passaram sem se ver mudou muito mais ela do que ele. Toda a cena desenrolada pela voz interessante do narrador e pelas rimas e ritmo imprimidos pelo Shelley:
The following morn was rainy, cold and dim:
Ere Maddalo arose, I called on him,
And whilst I waited with his child I played;
A lovelier toy sweet Nature never made,
A serious, subtle, wild, yet gentle being,
Graceful without design and unforeseeing,
With eyes -- Oh speak not of her eyes! -- which seem
Twin mirrors of Italian Heaven, yet gleam
With such deep meaning, as we never see
But in the human countenance: with me
She was a special favourite: I had nursed
Her fine and feeble limbs when she came first
To this bleak world; and she yet seemed to know
On second sight her ancient playfellow,
Less changed than she was by six months or so;
For after her first shyness was worn out
We sate there, rolling billiard balls about (…)
A parte narrativa do poema é levada bem a sério, e há muitas descrições da Veneza naquele tempo (1800~1815). O que é agradável e legal de ler. A metade final do poema, porém, não me pegou. É a visita dos dois amigos a um antigo poeta e homem bem-sucedido que agora, louco, está internado em algum tipo de asilo. A atmosfera e o cenário é até que interessante: Julian e Maddalo, pela Veneza agora chuvosa, viajam até a mansão imponente que abriga o louco, e a conversa vai longe, dando voz ao homem para contar sua história: de como o amor o pôs na miséria, e como só o caminho da verdade é o que vale a pena ser seguido. O homem possibilita mostrar aos dois amigos uma terceira visão do amor e do que ele é capaz, remetendo a uma discussão que ocorre antes no poema.
A gente avança no tempo, até uma outra visita do Julian ao amigo, que dessa vez está de viagem. A filha, agora crescida, é quem dá a notícia de que Maddalo não está. É ela, agora, quem toma conta da mansão e abriga o Julian. É ela, também, quem conta o desfecho da história do homem louco, e o poema termina nesse momento. Com um desfecho enigmático; um final aberto.
Sinceramente, eu não consigo apontar para um tema ou um argumento forte e central do poema, além da questão do amor, da racionalidade e da irracionalidade; aliás, nenhuma posição me ficou muito clara e nem a conclusão com relação ao velho. Se a intenção era só essa, mostrar os três pontos de vista, ele fez bem. Foi, no fim, uma boa experiência, e me deu fôlego para voltar a ler umas coisitas novas.
Eu li faz bastante tempo e, sinceramente, merece uma releitura e um comentário mais a fundo. Mas, vale o apontamento rápido: essa novela, pouco falada, foi onde eu enxerguei o Lovecraft no seu mais alto calão imaginativo, no mais alto potencial. Depois dela, entre tudo que li dele (aqueles contos mais famosos), só Erich Zann chega perto (e ainda sim está distante). Eu tenho certeza, absoluta, que esse conto aqui influenciou o Borges em, pelo menos, três de seus contos mais fundamentais, principalmente n'A Biblioteca de Babel. (Daí em diante, como o Macedônio com o Borges, a influência do Lovecraft, ganhando asas com as penas do argentino, só vai se tornando mais imensa com o tempo. O Houellebeck e o Benjamín Labatut que nos diga)
Não espere, porém, grandes diferenças: ele ainda é verborrágico, há parágrafos descritivos que ocupam páginas inteiras, e há o mesmo protagonista de sempre (dessa vez, professor auto-tornado arqueólogo), um louco e/ou obceado com conhecimentos antigos ou fenômenos estranhos após ser tocado ou tocar algo do tipo. Aqui, porém, há o melhor exemplo de tudo que o Lovecraft gosta de fazer, e tudo se dobra para o blend entre história de mistério (o professor tentando entender o que aconteceu enquanto "dormiu"; a ação do conto; as viagens por outros lugares e países; a perseguição de pistas que ele mesmo deixou, inconscientemente) e puro worldbuilding originalíssimo, que mistura sonhos, tempo e espaço (o protagonista visita, em supostos devaneios, uma cidade alienígena de construções ciclópicas, construída com formas geométricas estranhas, e acessa a biblioteca do lugar, que revela um sem-número de livros escritos por contemporâneos, gregos, romanos, gente de todos os tempos e até por antigas raças já extintas: é o esforço de "seres superiores" para catalogar, por algum motivo, todo o conhecimento da Terra e da Raça Humana). As reviravoltas e os mistérios vocês tem de ler para descobrir.
✲ 4.5/5.0
Não espere, porém, grandes diferenças: ele ainda é verborrágico, há parágrafos descritivos que ocupam páginas inteiras, e há o mesmo protagonista de sempre (dessa vez, professor auto-tornado arqueólogo), um louco e/ou obceado com conhecimentos antigos ou fenômenos estranhos após ser tocado ou tocar algo do tipo. Aqui, porém, há o melhor exemplo de tudo que o Lovecraft gosta de fazer, e tudo se dobra para o blend entre história de mistério (o professor tentando entender o que aconteceu enquanto "dormiu"; a ação do conto; as viagens por outros lugares e países; a perseguição de pistas que ele mesmo deixou, inconscientemente) e puro worldbuilding originalíssimo, que mistura sonhos, tempo e espaço (o protagonista visita, em supostos devaneios, uma cidade alienígena de construções ciclópicas, construída com formas geométricas estranhas, e acessa a biblioteca do lugar, que revela um sem-número de livros escritos por contemporâneos, gregos, romanos, gente de todos os tempos e até por antigas raças já extintas: é o esforço de "seres superiores" para catalogar, por algum motivo, todo o conhecimento da Terra e da Raça Humana). As reviravoltas e os mistérios vocês tem de ler para descobrir.
✲ 4.5/5.0