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834 reviews by:

fevi


3,5


Oceano de Tilápias é um livro super bem escrito e com o poder de nos arrancar suspiros. A história de amizade de Amora e Ariel é super fofa e começa décima maneira inusitada, mas ainda assim cresce de uma maneira incrível. A personalidade de cada personagem é marcada pela escrita nas cartas.

Confesso que gostaria e estava esperando uma carga dramática maior por causa do passado de Ariel. Ao meu ver poderia fazer o enredo crescer. Mas a história leve não perde em nada. É uma ótima leitura. A reviravolta no posfácio eu achei um tantinho exagerado, mas nada que estrague o enredo.

Gostei das cartas do final. Novas perspectivas.

Acho que funciona para quem está em ressaca literária.



Se a rua Beale falasse é um livro incrível, emocionante. Uma história de amor sem igual. Obrigado pelo mimo, James Baldwin.

Tish narra o que acontece Se a rua Beale falasse. Tish é namorada de Fonny que vai preso injustamente ao ser acusado de ter estuprado uma mulher. A narração de Tish relata como ela e Fonny se conheceram, sobre a vida deles no Harlem, sua paixão e os encontros dela com seu amor na prisão.

A escrita de James Baldwin é simples, mas extremamente poderosa. Ele em nenhum momento usa de palavras pesadas para deixar claro o que está acontecendo. Seja em uma cena de sexo, ou uma cena de violência, racismo. Não há nada de perturbador em suas palavras, mas sim nos acontecimentos.

Eu me peguei várias vezes emocionado e até mesmo chorando o que Baldwin havia escrito. Se a rua Beale falasse para mim é um conto de fadas com um casal negro e o vilão aqui é racismo, o preconceito. Por ter sido um ativista político do movimento negro e por também sentir na pele o que é ser negro nos EUA, Baldwin consegue descrever brilhantemente as vivências de preconceito e injustiça vividos por estes personagens. É torturante ler e perceber que eles estão sofrendo somente por serem negros.

Apesar de ser uma história que gira em torno de uma falsa acusação de estupro e uma prisão, para mim, a história de amor entre Tish e Fonny foi o que mais se destacou. É uma história genuína e linda de se acompanhar. A primeira cena de amor entre eles é uma das coisas mais bonitas que eu já li.

É uma história bem construída, com personagens bem trabalhados e com uma imersão/ambientação não só no ambiente físico, mas também no psicológico da cada personagem que é simplesmente maravilhoso. Mesmo o livro sendo narrado por uma única pessoa você consegue ver o potencial de cada um.

Eu, com certeza, deixei algum aspecto importante de lado. Mas deixo aqui a minha super recomendação para você ter a sua própria visão por uma história linda. E assim como eu vai ficar querendo mais e mais da obra de James Baldwin.

A história de Torto Arado vai além dos momentos familiares narrados por Bibiana e Belonísia. É um enredo espaçado que tem o intuito de rememorar a vida do homem negro no campo e mostrar a sua força ao sobreviver em condições inapropriadas.

Itamar Vieira Junior tem uma poderosa forma de narrar. Para mim, talvez seja essa a maior qualidade do livro. Em muitos momentos lembraram-me as reuniões com a minha família quando os mais velhos contavam histórias sobre as suas juventudes e os antepassados. É assim que vejo a narração de Bibiana, na primeira parte, e de Belonísia, na segunda. Depois de um evento que muda a vida das duas percorremos não só a história da família das duas personagens, mas também a vida de muitos outros homens e mulheres que vivem no grande pedação de chão que é a Fazenda Água Negra. A vivência das famílias negras ao manejar à terra, o cotidiano com os seus ancestrais por meio das festas do jarê. Tordo Arado possui um enredo rico ao relembrar histórias muitas vezes menosprezadas ou esquecidas pela constância do poder branco no Brasil e influência de falácias como o mito da democracia racial.

Cada momento escolhido pelo autor para mostrar a cultura dos negros, a vivência nas fazendas, o modo como eram tratados, o culto aos ancestrais, é para mostrar o quanto não lembramos ou somos levados a esquecer uma parte importante da construção do nosso país. Eu duvido que muitas pessoas tenham conhecimento sobre essa parte do Brasil. É mais uma tentativa de reacender as chamas sobre o passado apagado e nos mostrar a sua importância.

Muito me indigna quem diz que essa história é para pessoas brancas, cheias de didatismo ou até mesmo panfletária. É uma escolha injusta de adjetivos com o intuito de menosprezar a literatura de Vieira Junior. A construção do enrendo é baseada em fatos históricos e orais. Não é uma ficção fantasiosa imaginada do nada. Tenho para mim que muitos que questionam se a obra de Itamar é mesmo literatura está sendo mais uma vez racista. Se fosse escrito por uma pessoa branca esses questionamentos não apareceriam.

Enfim, é um enredo de qualidade. Uma história gostosa de se ler. Vale super a pena conhecer o mundo que Itamar rememora nesse livro, nessa potência.

Obrigado, Elena Ferrante.

História de quem foge e quem fica é um livrão da porra. No começo eu fiquei entediado com a história focada na Lenu mesmo querendo que isso acontecesse. Não nego que Lila é uma personagem que dá sustância na narração de Ferrante.

O livro começou a crescer, a meu ver, quando Lila aparece e depois não caiu mais. A parte focada em Lenu cresceu, ganhou destaque e terminou em um ápice que me deixou extremamente irritado. Eu simplesmente não acreditei que aquilo estava acontecendo. Nesse terceiro livro há vários acontecimentos marcantes.

Lenu e Lila crescem e estão maduras. Esse amadurecimento é perceptível. Elas ultrapassam a barreira dos 25 anos e isso é significativo. Você percebe o crescimento das personagens e relação delas com os outros. Achei fantástico o fortalecimento de Lenu e sua vida longe de Nápoles. As inúmeras coisas que aconteceram enquanto ela estava longe de seu bairro e de Lila. Assuntos marcantes também estiveram presentes. O que é característico de Elena Ferrante.

Fiquei em uma relação de amor e ódio. Torcendo e ficando irritando durante a leitura prazerosa desse terceiro livro da série napolitana. E já comecei a fazer as minhas teorias de como tudo isso vai acabar. Para mim, não acaba nada bem. No entanto, vamos ver o Elena Ferrante nos preparou.

Super indico a leitura. É envolvente, personagens reais e maravilhosos. Fora que é super prazerosa. Não tem como ler e não se apaixonar.

Linguagem é tudo, né? A história é contada em forma de repente e não tem como não admirar. Misturar ficção-científica com o sertão dá muito certo.

Esse conto já me chamou a atenção por causa do cenário em que ele se passa: a pandemia. E também por ter personagens gays. Fui atrás, li e curti a escrita e achei o final engraçado apesar do exagero. Principalmente no epílogo. Acho que faz parte por causa do gênero.

Eu descobri logo no começo quem estava por trás de tudo porque o comportamento deixa tudo claro. Mas isso não tira o entretenimento da leitura. Além disso também gostei das reflexões sobre a vivência gay em comparação com o enredo e os personagens em filmes de terror.

Lauro Kociuba reconta em Raízes de Vento e Sangue mitos, lendas e folclores presentes no Brasil. O tom do livro não é lúdico. As versões muitas vezes são sombrias e até mesmo assustadoras como no conto da Pisadeira. O autor faz as suas próprias interpretações e toma liberdade para fazer modificações nas histórias que cria. Ainda assim tem muito do Brasil e de suas vivências. É um livro muito bem escrito e envolvente. Para quem gosta da mitologia das lendas tem um prato cheio e diferenciado. Alguns contos são melhores que outros, mas nada que atrapalhe o produto final.

Os meus contos preferidos foram:

- Y-îara;
- Boto;
- Boi.

Equivocados senhores, sou culpado. Minha digressão — a de degradar a vida dos autores por intermédio de suas obras — é condenável. Amaldiçoem-me, mas não retirem meu ouro.


Jacques Fux ganha o prêmio mais famoso e cobiçado da literatura mundial. Nobel é o seu discurso de agradecimento. Com um texto inundado de ironia e sarcasmo o autor fala sobre as escolhas da academia sueca. As escolhas que permeiam o machismo, o racismo, o tráfico de influência. Isso não fica a cargo somente dos votantes. Muitos dos autores premiados também carregam em sua bagagem um passado não tão agradável. Ao longo do extenso agradecimento o Fux se usa do caráter dos laureados para afirmar que, assim como ele, pessoas de caráter ruim podem construir obras magníficas com poder de influência significativo. Muito dos autores premiados eram pessoas detestáveis.

Além de uma grande crítica a tudo isso àquela velha questão: é possível separar o autor ou autora da obra? Eu, sinceramente, não sei. No entanto, é sempre possível questionar e discutir sobre seus ideais que, com certeza, perpetuam a obra que escrevem. Fux usa muito da liberdade criativa para aumentar as histórias dos autores e deixa isso claro. No entanto, muito do que li ali e fui conferir era verdade. Não posso me deixar de ter ficado extremamente surpreso. Pessoas ruins escrevem coisas incríveis e muitas vezes fica por isso mesmo.


É no desvio, nos atos indecorosos, nos recalques obscenos, sórdidos, sorrateiros que repousa o verdadeiro autor e as suas mais sensíveis e honestas palavras.


Fux, o personagem-escritor que não vale nada, começa o livro de forma arrebatadora. A escrita rebuscada e humor na medida certa me dominaram logo de cara. Entretanto, um pouco depois da metade ele perde fôlego e as críticas irônicas ficam menos profundas. Apesar de reconhecer isso eu já havia sido conquistado. Enfim, se você gosta de fofoca no meio literário esse livro é um prato cheio. Fica a recomendação.

Eu começo esse comentário com um conselho: se você não tem nenhum tipo de leitura anterior para entender marxismo e luta de classes você pode ficar perdido, como eu. Recomendo leituras prévias do Manifesto Comunista e outras que deem embasamento histórico e filosófico. Assim você ficará menos perdido. rs

Depois do alerta devo dizer que a leitura de A luta de classes me deu muitas repostas e me gerou outras dúvidas. O que para mim já transforma a leitura extramente significante. Losurdo vai fazer um panorama desde o momento em que o Marx e Engles escrevem o Manifesto e até os dias atuais, mas com enfoque principalmente URSS e outro tanto na China.

Losurdo alerta sobre acertos e erros do movimento, interpretações erradas de conceitos. As diferenças entre o socialismo utópico, o realista, a práxis. Analisa o que foi feito depois da revolução de 1917. Como a minha leitura antes de começar Losurdo era extremamente básica, a leitura foi engrandecedora. Não consigo explicar muito aqui, mas acho que é uma leitura importante.

Fica a recomendação para quem quer entender mais da luta de classes e do movimento marxista.

2,5

Memorial de Maria Moura é sobre como uma mulher esconde-se atrás de seus jagunços para criar a mítica de uma mulher poderosa. Ela é poderosa porque tem é rica e branca. Não é ela que bota medo nos outros, mas sim os seus cabras. Eu acreditei que a veria mais vezes no sertão em ação, mas ela só dava ordens. Infelizmente a promessa de uma história agitada não ficou por conta dela, mas sim dos personagens secundários como o Beato Romano e Marialva.

Os personagens secundários são muitos mais atraentes são só por haver uma transformação significativa, mas também existir um crescimento que Maria Moura não tem. Ela não virou um "cabra-macho" porque lutou, saqueou ou matou. Foi apenas uma questão imagética. A força não veio da sua ação, mas do passado familiar que detinha dinheiro. O respeito que os outros tinham por ela veio desse passado.

Até mesmo Duarte e Cirino movimentam mais a história do que Maria Moura. Ela é apenas uma caricatura de qualquer personagem masculino que detêm poder. Maria Moura tem um caráter questionável intencional, mas é fraca em construção. Teria sido muito mais agradável acompanhar Beato Romano e Marialva. Além de tudo, há passagens sobre racismos que não são justificáveis pelo período em que se passa na história.

Enfim, Maria Moura é uma personagem que se escora nos quesitos de raça e classe para construir o seu império do medo no sertão nordestino. A sua força e personalidade forte é fajuta. Já que no final é engabelada por um macho qualquer. A minha opinião seria mais positiva se a personagem fosse melhor construída. Mas não é. Leia quem quiser.