Take a photo of a barcode or cover
Equivocados senhores, sou culpado. Minha digressão — a de degradar a vida dos autores por intermédio de suas obras — é condenável. Amaldiçoem-me, mas não retirem meu ouro.
Jacques Fux ganha o prêmio mais famoso e cobiçado da literatura mundial. Nobel é o seu discurso de agradecimento. Com um texto inundado de ironia e sarcasmo o autor fala sobre as escolhas da academia sueca. As escolhas que permeiam o machismo, o racismo, o tráfico de influência. Isso não fica a cargo somente dos votantes. Muitos dos autores premiados também carregam em sua bagagem um passado não tão agradável. Ao longo do extenso agradecimento o Fux se usa do caráter dos laureados para afirmar que, assim como ele, pessoas de caráter ruim podem construir obras magníficas com poder de influência significativo. Muito dos autores premiados eram pessoas detestáveis.
Além de uma grande crítica a tudo isso àquela velha questão: é possível separar o autor ou autora da obra? Eu, sinceramente, não sei. No entanto, é sempre possível questionar e discutir sobre seus ideais que, com certeza, perpetuam a obra que escrevem. Fux usa muito da liberdade criativa para aumentar as histórias dos autores e deixa isso claro. No entanto, muito do que li ali e fui conferir era verdade. Não posso me deixar de ter ficado extremamente surpreso. Pessoas ruins escrevem coisas incríveis e muitas vezes fica por isso mesmo.
É no desvio, nos atos indecorosos, nos recalques obscenos, sórdidos, sorrateiros que repousa o verdadeiro autor e as suas mais sensíveis e honestas palavras.
Fux, o personagem-escritor que não vale nada, começa o livro de forma arrebatadora. A escrita rebuscada e humor na medida certa me dominaram logo de cara. Entretanto, um pouco depois da metade ele perde fôlego e as críticas irônicas ficam menos profundas. Apesar de reconhecer isso eu já havia sido conquistado. Enfim, se você gosta de fofoca no meio literário esse livro é um prato cheio. Fica a recomendação.