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1,5
Consigo entender a construção da autora e consigo achar quase genial, mas infelizmente o livro é um marasmo completo. A autora tenta focar nas construções das personalidades, mas nem assim consegue criar algo que chame atenção e te deixe instigado. E, definitivamente, atrapalha o desenvolvimento da história em muitas partes. Está tudo na mesma vibe insossa. Mesmo quando você entende o que a autora pretendia contar é tarde demais, o que aparentava ser bom fica só na aparência. Assim como praticamente todas as relações apresentadas no livro.
É entediante acompanhar a de Vic e Melinda. Eles não se amam, mas insistem em ficar juntos vivendo uma relação nada saudável. Acompanhá-los nas festas e nas relações com seus vizinhos e conhecidos também não é divertido. A chatice de cada um consegue ultrapassar qualquer grau de interesse. Apesar de gostar das partes em que Vic fala sobre livros. Vejo também como estratégica a escolha da autora criar Melinda de forma mais chata e com um caráter mais questionável que a do Vic. Pelo menos um caráter mais aparente.
É um livro que funciona para o que autora que contar, mas não funciona para quem está lendo. A progressão do que ela narra para culminar no último capítulo faz total sentido, mas não me agradou. Eu não gostei da escrita. Tudo ali é entediante. Além de tudo, fiquei sem acreditar que o final do livro seria aquele. Não tem clima nenhum de mistério. Eu não recomendo. Leia por sua conta e risco.
Consigo entender a construção da autora e consigo achar quase genial, mas infelizmente o livro é um marasmo completo. A autora tenta focar nas construções das personalidades, mas nem assim consegue criar algo que chame atenção e te deixe instigado. E, definitivamente, atrapalha o desenvolvimento da história em muitas partes. Está tudo na mesma vibe insossa. Mesmo quando você entende o que a autora pretendia contar é tarde demais, o que aparentava ser bom fica só na aparência. Assim como praticamente todas as relações apresentadas no livro.
É entediante acompanhar a de Vic e Melinda. Eles não se amam, mas insistem em ficar juntos vivendo uma relação nada saudável. Acompanhá-los nas festas e nas relações com seus vizinhos e conhecidos também não é divertido. A chatice de cada um consegue ultrapassar qualquer grau de interesse. Apesar de gostar das partes em que Vic fala sobre livros. Vejo também como estratégica a escolha da autora criar Melinda de forma mais chata e com um caráter mais questionável que a do Vic. Pelo menos um caráter mais aparente.
É um livro que funciona para o que autora que contar, mas não funciona para quem está lendo. A progressão do que ela narra para culminar no último capítulo faz total sentido, mas não me agradou. Eu não gostei da escrita. Tudo ali é entediante. Além de tudo, fiquei sem acreditar que o final do livro seria aquele. Não tem clima nenhum de mistério. Eu não recomendo. Leia por sua conta e risco.
É um conto super fofo e com a aura mágica perceptível, mas achei curto demais. Fiquei esperando mais situações entre Ellara e Samira, além de mais informações sobre o mundo da floresta encantada.
Ê autore tem uma escrita muito boa. Fez com que a leitura fosse agradável.
Ê autore tem uma escrita muito boa. Fez com que a leitura fosse agradável.
4,5
Estou simplesmente apaixonado pela escrita de Isabor Quintiere. Que texto gostoso de se ler, acompanhar. A autora consegue desenvolver a história de forma magnífica e instigante. Não tem como não gostar. A relação de Asher com os filhos é uma questão para se pensar muito. Eu gostei muito mesmo.
Estou simplesmente apaixonado pela escrita de Isabor Quintiere. Que texto gostoso de se ler, acompanhar. A autora consegue desenvolver a história de forma magnífica e instigante. Não tem como não gostar. A relação de Asher com os filhos é uma questão para se pensar muito. Eu gostei muito mesmo.
Quinze Dias é aquele tipo de história que a gente lê para aquecer o coração. Para se sentir bem, apesar de tudo que acontece a nossa volta. É um sopro de fofura e felicidade. Não tem como ficar sem sorrir ao longo dos 15 dias em que Caio e Felipe aprofundam a relação deles. No entanto, minha personagem preferida é a dona Rita. É só amor. <3
Um milhão de finais felizes me conquistou mais que [b: Quinze Dias|35033895|Quinze dias|Vitor Martins|https://i.gr-assets.com/images/S/compressed.photo.goodreads.com/books/1493820858l/35033895._SX50_.jpg|56319517]. Acompanhar Jonas e a sua jornada de autoconhecimento, aceitação, a convivência com seus amigos e amigas, e seu drama familiar trouxe mais proximidade para com as minhas vivências.
Para mim, essa história do Vitor Martins mostra a sua maturidade como escritor. Foi a que mais curti ler. Tudo está na medida perfeita: o drama, a profundidade, o humor. É um livro super gostoso de ler, mas ainda assim é um livro com uma carga pesada. A relação entre jovens lgbtqia+ e a igreja ainda é algo bastante presente em um país cristão como o nosso. A forma como Vitor aborda tudo isso é bastante palpável. Muitos lgbtqia+ saem bastante machucados desse encontro. Quantos de nós não conhecemos alguém que foi afetado pela religião e por ter uma relação conflituosa com os pais por causa da sexualidade? Quantos de nós não sofremos com isso?
Da mesma forma competente o autor descreve relação amorosas e fraternais. A relação de Jonas com Danilo, Isadora, Karina e Arthur é uma das coisas mais legais e verdadeiras que já li. Mais uma coisa que me identifiquei bastante. Não adianta, Vitor descreve muito bem a vivência de jovens adultos e adolescentes. Outra coisa que funcionou aqui foram as referências ao mundo pop. Não saíram forçadas ou exageradas.
Um milhão de finais felizes é uma história tipicamente brasileira contemporânea. Divertida, complexa e bonita. Uma leitura que vale a pena.
Para mim, essa história do Vitor Martins mostra a sua maturidade como escritor. Foi a que mais curti ler. Tudo está na medida perfeita: o drama, a profundidade, o humor. É um livro super gostoso de ler, mas ainda assim é um livro com uma carga pesada. A relação entre jovens lgbtqia+ e a igreja ainda é algo bastante presente em um país cristão como o nosso. A forma como Vitor aborda tudo isso é bastante palpável. Muitos lgbtqia+ saem bastante machucados desse encontro. Quantos de nós não conhecemos alguém que foi afetado pela religião e por ter uma relação conflituosa com os pais por causa da sexualidade? Quantos de nós não sofremos com isso?
Da mesma forma competente o autor descreve relação amorosas e fraternais. A relação de Jonas com Danilo, Isadora, Karina e Arthur é uma das coisas mais legais e verdadeiras que já li. Mais uma coisa que me identifiquei bastante. Não adianta, Vitor descreve muito bem a vivência de jovens adultos e adolescentes. Outra coisa que funcionou aqui foram as referências ao mundo pop. Não saíram forçadas ou exageradas.
Um milhão de finais felizes é uma história tipicamente brasileira contemporânea. Divertida, complexa e bonita. Uma leitura que vale a pena.
Um conto fofo com representação realista sobre a adolescência e a forma como lidamos com os mais variados sentimentos, além de uma mensagem super legal sobre autoconhecimento e vivência sobre a descoberta de um amor.
Eu tenho muita dificuldade em entender e gostar de poesia. Acredito que algo ficou perdido no meu aprendizado. Enfim, apesar dessa barreira consegui admirar e entender o sentimento que Eduardo Leite compartilhou em seus poemas escritos e em imagens. O fato de ficar perdido ou quase louco é comum a quase todos que viveram isolamento nessa tragédia. Ele conseguiu captar bem esse momento.
O nojo e a surpresa são os sentimentos que perpetuaram a minha leitura. 98% de asco e 2% de surpresa.
Esse livro é essencial e maravilhoso apesar de todo sofrimento e denúncia presente nele. Recomendadíssimo.
Fome. Miséria. Labuta. Sofrimento. Racismo. Preconceito. Descaso. Fome. Fome. Fome. Entre tantos problemas, denúncias, anedotas e particularidades, o que mais ecoa nas anotações quase que diárias de Carolina Maria de Jesus em seu primeiro livro publicado,"Quarto de Despejo - Diário de uma Favelada", a fome é uma das realidades que mais se fez presente: não só na vida da própria autora, mas também de todos os moradores com quem compartilhava as mesmas ruas, as mesmas bicas d’água na primeira favela da grande São Paulo da década de 1950.
"Quarto de Despejo" é mais que um diário, é um livro denúncia que expõe as mazelas sofridas pelas pessoas excluídas da sociedade e afetadas pelo descaso dos políticos. As primeiras anotações narram um pedaço do mês de julho de 1955, em seguida, há um salto de alguns anos e novas linhas são escritas a partir de maio de 1958, depois 1959 e terminam exatamente em primeiro de janeiro de 1960. As narrações feitas por Carolina são feitas em uma linguagem simples e direta. A ortografia e a gramática deficitária foram mantidas pelos editores do livro para que demonstrasse de forma mais pungente os relatos ali descritos. Apesar de não ter completado o ensino básico, Carolina adorava ler. Por ser uma leitora assídua, é perceptível a forma como a linguagem culta das outras obras se faz presente na sua. Há uma variação entre o simples e o sofisticado na sua escrita. A meu ver, essa é uma das grandes potências da obra. Uma mulher que não completou os estudos, esquecida pela sociedade, mas que faz do prazer em ler e da sua necessidade de escrita um grito de protesto cru e verdadeiro.
Ao longo dos dias e meses descritos por Carolina, ficamos sabendo com clareza como é a sua rotina. Ela acordava cedo, buscava água da bica, arrumava o café da manhã para os filhos mais velhos João e José Carlos e depois os despachava para escola. Para ela, o ensino escolar era fundamental. Em seguida, alimentava a filha mais nova, Vera, e em seguida partia para a rua para catar papel, ferro e alumínio durante o dia inteiro, para depois vender e conseguir o dinheiro que seria essencial para comprar o alimento para o próximo dia. No entanto, nem sempre conseguia algo ou o dinheiro não era o suficiente e, nesse momento, a dor da fome sempre aparecia: o medo de não conseguir alimentar os próprios, o medo de morrer de fome. Quando não conseguia, ela pedia aos vizinhos, as pessoas de classe mais abastada, ia em mercados ou frigoríficos para pegar o resto e fazer sopa. Quando não encontrava nada, chafurdava o lixo em busca do alimento. Em uma passagem do livro, ela descreve como isso se fazia presente na sua vida. “ 1 de novembro … Achei um saco de fubá no lixo e trouxe para dar ao porco. Eu já estou tão habituada com as latas de lixo que não sei passar por elas sem ver o que há dentro.” Às vezes, ela até pensava em suicídio e incluía os filhos nesse plano, para que assim não sofressem mais com a fome constante. Sempre que isso a aterrorizava, ela escrevia em seu diário ou lia. Com certeza, é uma das partes chocantes para qualquer um. Essas passagens sobre a fome que assolava a favela do Canindé me lembram de uma familiar que também ia em mercados, feiras e sacolões catar restos e sobras para colocar no prato de comida e alimentar os filhos. A pobreza e a fome tinham dado uma trégua às famílias brasileiras mas devido à crise política dos últimos anos, o país pode voltar para a lista do Mapa da Fome. No entanto, esses não eram os únicos problemas que tinham destaque na vida de Carolina e no cotidiano da favela.
A violência era um problema constante e excessivamente narrado nos diários. A guerra entre os vizinhos que brigavam por causa de traição, por defesa da honra ou porque simplesmente não iam com a cara da outra pessoa. Os pequenos roubos também terminavam em brigas. A violência contra a mulher e o abandono de crianças também são bastante frequentes nas linhas que narravam o dia a dia da favela. Carolina tentava apaziguar muito desses conflitos por meio de conversas ou chamando a polícia para que resolvesse a situação. Carolina era uma mulher orgulhosa, politizada, firme e clara nas duas decisões. Por isso ajudava, de certa maneira, a resolver alguns desses problemas que chegavam até sua porta. Ela afirmava que o povo que residia no Canindé, os favelados de uma forma geral, não possuíam educação e, por isso, viviam brigando e tomando conta da vida dos outros.
São indiscutíveis as passagens de racismo presentes no livro. Em certo momento a autora relata: “No sexto andar o senhor que penetrou no elevador olhou-me com repugnancia. Já estou familiarisada com estes olhares. Não me entristeço.” Carolina tinha consciência do sofrimento que a afligia por ser uma mulher de pele escura em um espaço em que quanto mais branco a pessoa for, mais privilégios ela detém. Mesmo assim, ela não se deixava abalar e mostrava o quanto se sentia bem com a pele que a revestia. “Esquecendo eles que eu adoro a minha pele negra, e o meu cabelo rustico. Eu até acho o cabelo do negro mais iducado do que o cabelo de branco. Porque o cabelo de preto onde põe, fica. É obediente. E o cabelo de branco, é só dar um movimento na cabeça ele já sai do lugar. É indisciplinado. Se é que reincarnações, eu quero voltar sempre preta.” Não só ela, mas também todo o negro presente em solo brasileiro sofre com os pequenos racismos estruturais. Em outra passagem do livro, ela questiona, depois de conversar com um homem negro sobre violência policial, se os brancos não entendem que a escravidão já acabou: “... Eu estava pagando o sapateiro e conversando com um preto que estava lendo um jornal. Ele estava revoltado com um guarda civil que espancou um preto e amarrou numa arvore. O guarda civil é branco. E há certos brancos que transforma preto em bode expiatorio. Quem sabe se guarda civil ignora que já foi extinta a escravidão e ainda estamos no regime da chibata?” Olhar para todo esse questionamento feito por Carolina Maria de Jesus e ver que a população negra ainda sofre com o racismo, com os resquícios da escravidão e com o poder avassalador do racismo estrutural, é acabar em um momento reflexivo repleto de ódio e desalento. Por mais que inúmeras pessoas lutem para acabar com esse tipo de crime, ele insiste em aparecer das mais diversas formas e nas mais diversas intensidades. A principal forma de acabar com isso é mexer na estrutura do país e acabar com os privilégios dos outros. Os brancos, no entanto, que são quem possuem os privilégios, o poder da lei e do dinheiro, não estão dispostos em rever os seus poderes.
Apesar de todas essas contrariedades Carolina Maria de Jesus se esforçava para ver pontos positivos em sua vida. Quando a fome, que realmente a desestabilizava, já não a atormentava tanto, ela mudava de discurso e conseguia apreciar os bons momentos em que tinha com seus filhos, na amizade com os vizinhos, com os homens que a paqueravam mesmo ela não querendo eles em definitivo em sua vida. Mesmo sabendo que “(...) o pobre não repousa. Não tem o privilegio de gosar descanço.”, ela dizia “(...) ser muito alegre. Todas as manhãs eu canto. Sou como as aves, que cantam apenas ao amanhecer. De manhã eu estou sempre alegre. A primeira coisa que faço é abrir a janela e contemplar o espaço.” Carolina era uma mulher que, mesmo nas dificuldades, tinha foco para conseguir realizar os seus objetivos. Em nenhum momento ela deixou de lutar pelos seus sonhos. Infelizmente, ter sido uma pessoa determinada não a fez sofrer menos. Por sorte ou destino, encontrou alguém que se interessou por seus relatos e a ajudou a publicar o seu tão sonhado livro.
Ainda que narrasse fatos desoladores, tristes, revoltantes a primeira obra de Carolina Maria de Jesus é de uma leitura fascinante e extremamente agradável. Em certos momentos quando ela narra o cotidiano dos vizinhos é possível soltar algumas risadas. O fato de gostar de ler transformou os relatos que seriam simples em uma prosa poética admirável. A sua obra de denúncia, a sua literatura marginal é transformadora e de relevância incontestável. Não foi por acaso que o livro fez sucesso no Brasil e acabou sendo traduzido para mais de dez línguas. Um sonho que transformou a literatura brasileira e sua vida, mas que não conseguiu mudar a realidade de outros.
O sonho virou "Quarto de Despejo", que denunciava os problemas afligiam a população negra, pobre e marginalizada do século passado, e que ainda hoje se faz presente para os indivíduos que estão na mesma posição dos seus antepassados. Foi uma denúncia que fez sucesso perante o Brasil e o mundo inteiro, mas que não teve soluções significativas, pois ainda há pessoas marginalizadas sofrendo, passando fome e sendo preteridas pelos políticos. Ainda existem negros sofrendo por serem que são. Carolina fez a sua parte, mas quem mais devia trabalhar pela mudança, insiste em olhar para o próprio umbigo e esquece das outras realidades ao seu redor. Principalmente do marginal, que não tem nome, mas tem voto.
No final, Carolina foi esquecida pelas editoras, pelo intelectuais. O seu esquecimento é um símbolo do que a sociedade brasileira faz com os negros e pobres que vivem nesse país. Para você ser lembrado, é preciso fazer algo extraordinário, e depois disso, se acharem que não vale mais apenas, acreditam terem o direito de descartarem você. Como um lixo qualquer jogado em um terreno baldio.
Cabe a nós, os seus semelhantes, não deixá-la cair no esquecimento outra vez. É preciso fazer com que negros, pobres e marginais não se sintam em quartos de despejos espalhados por todo país. Os favelados, com a ajuda de todas as parcelas da sociedade, precisam transformar os seus quartos de despejos em salas de visitas com lustres de cristais, tapetes de veludos e almofadas de cetim.
"Quarto de despejo - Diário de uma Favelada" é mais que recomendável. É uma leitura obrigatória para qualquer pessoa que habite esse vasto mundo.
Fome. Miséria. Labuta. Sofrimento. Racismo. Preconceito. Descaso. Fome. Fome. Fome. Entre tantos problemas, denúncias, anedotas e particularidades, o que mais ecoa nas anotações quase que diárias de Carolina Maria de Jesus em seu primeiro livro publicado,"Quarto de Despejo - Diário de uma Favelada", a fome é uma das realidades que mais se fez presente: não só na vida da própria autora, mas também de todos os moradores com quem compartilhava as mesmas ruas, as mesmas bicas d’água na primeira favela da grande São Paulo da década de 1950.
"Quarto de Despejo" é mais que um diário, é um livro denúncia que expõe as mazelas sofridas pelas pessoas excluídas da sociedade e afetadas pelo descaso dos políticos. As primeiras anotações narram um pedaço do mês de julho de 1955, em seguida, há um salto de alguns anos e novas linhas são escritas a partir de maio de 1958, depois 1959 e terminam exatamente em primeiro de janeiro de 1960. As narrações feitas por Carolina são feitas em uma linguagem simples e direta. A ortografia e a gramática deficitária foram mantidas pelos editores do livro para que demonstrasse de forma mais pungente os relatos ali descritos. Apesar de não ter completado o ensino básico, Carolina adorava ler. Por ser uma leitora assídua, é perceptível a forma como a linguagem culta das outras obras se faz presente na sua. Há uma variação entre o simples e o sofisticado na sua escrita. A meu ver, essa é uma das grandes potências da obra. Uma mulher que não completou os estudos, esquecida pela sociedade, mas que faz do prazer em ler e da sua necessidade de escrita um grito de protesto cru e verdadeiro.
Ao longo dos dias e meses descritos por Carolina, ficamos sabendo com clareza como é a sua rotina. Ela acordava cedo, buscava água da bica, arrumava o café da manhã para os filhos mais velhos João e José Carlos e depois os despachava para escola. Para ela, o ensino escolar era fundamental. Em seguida, alimentava a filha mais nova, Vera, e em seguida partia para a rua para catar papel, ferro e alumínio durante o dia inteiro, para depois vender e conseguir o dinheiro que seria essencial para comprar o alimento para o próximo dia. No entanto, nem sempre conseguia algo ou o dinheiro não era o suficiente e, nesse momento, a dor da fome sempre aparecia: o medo de não conseguir alimentar os próprios, o medo de morrer de fome. Quando não conseguia, ela pedia aos vizinhos, as pessoas de classe mais abastada, ia em mercados ou frigoríficos para pegar o resto e fazer sopa. Quando não encontrava nada, chafurdava o lixo em busca do alimento. Em uma passagem do livro, ela descreve como isso se fazia presente na sua vida. “ 1 de novembro … Achei um saco de fubá no lixo e trouxe para dar ao porco. Eu já estou tão habituada com as latas de lixo que não sei passar por elas sem ver o que há dentro.” Às vezes, ela até pensava em suicídio e incluía os filhos nesse plano, para que assim não sofressem mais com a fome constante. Sempre que isso a aterrorizava, ela escrevia em seu diário ou lia. Com certeza, é uma das partes chocantes para qualquer um. Essas passagens sobre a fome que assolava a favela do Canindé me lembram de uma familiar que também ia em mercados, feiras e sacolões catar restos e sobras para colocar no prato de comida e alimentar os filhos. A pobreza e a fome tinham dado uma trégua às famílias brasileiras mas devido à crise política dos últimos anos, o país pode voltar para a lista do Mapa da Fome. No entanto, esses não eram os únicos problemas que tinham destaque na vida de Carolina e no cotidiano da favela.
A violência era um problema constante e excessivamente narrado nos diários. A guerra entre os vizinhos que brigavam por causa de traição, por defesa da honra ou porque simplesmente não iam com a cara da outra pessoa. Os pequenos roubos também terminavam em brigas. A violência contra a mulher e o abandono de crianças também são bastante frequentes nas linhas que narravam o dia a dia da favela. Carolina tentava apaziguar muito desses conflitos por meio de conversas ou chamando a polícia para que resolvesse a situação. Carolina era uma mulher orgulhosa, politizada, firme e clara nas duas decisões. Por isso ajudava, de certa maneira, a resolver alguns desses problemas que chegavam até sua porta. Ela afirmava que o povo que residia no Canindé, os favelados de uma forma geral, não possuíam educação e, por isso, viviam brigando e tomando conta da vida dos outros.
São indiscutíveis as passagens de racismo presentes no livro. Em certo momento a autora relata: “No sexto andar o senhor que penetrou no elevador olhou-me com repugnancia. Já estou familiarisada com estes olhares. Não me entristeço.” Carolina tinha consciência do sofrimento que a afligia por ser uma mulher de pele escura em um espaço em que quanto mais branco a pessoa for, mais privilégios ela detém. Mesmo assim, ela não se deixava abalar e mostrava o quanto se sentia bem com a pele que a revestia. “Esquecendo eles que eu adoro a minha pele negra, e o meu cabelo rustico. Eu até acho o cabelo do negro mais iducado do que o cabelo de branco. Porque o cabelo de preto onde põe, fica. É obediente. E o cabelo de branco, é só dar um movimento na cabeça ele já sai do lugar. É indisciplinado. Se é que reincarnações, eu quero voltar sempre preta.” Não só ela, mas também todo o negro presente em solo brasileiro sofre com os pequenos racismos estruturais. Em outra passagem do livro, ela questiona, depois de conversar com um homem negro sobre violência policial, se os brancos não entendem que a escravidão já acabou: “... Eu estava pagando o sapateiro e conversando com um preto que estava lendo um jornal. Ele estava revoltado com um guarda civil que espancou um preto e amarrou numa arvore. O guarda civil é branco. E há certos brancos que transforma preto em bode expiatorio. Quem sabe se guarda civil ignora que já foi extinta a escravidão e ainda estamos no regime da chibata?” Olhar para todo esse questionamento feito por Carolina Maria de Jesus e ver que a população negra ainda sofre com o racismo, com os resquícios da escravidão e com o poder avassalador do racismo estrutural, é acabar em um momento reflexivo repleto de ódio e desalento. Por mais que inúmeras pessoas lutem para acabar com esse tipo de crime, ele insiste em aparecer das mais diversas formas e nas mais diversas intensidades. A principal forma de acabar com isso é mexer na estrutura do país e acabar com os privilégios dos outros. Os brancos, no entanto, que são quem possuem os privilégios, o poder da lei e do dinheiro, não estão dispostos em rever os seus poderes.
Apesar de todas essas contrariedades Carolina Maria de Jesus se esforçava para ver pontos positivos em sua vida. Quando a fome, que realmente a desestabilizava, já não a atormentava tanto, ela mudava de discurso e conseguia apreciar os bons momentos em que tinha com seus filhos, na amizade com os vizinhos, com os homens que a paqueravam mesmo ela não querendo eles em definitivo em sua vida. Mesmo sabendo que “(...) o pobre não repousa. Não tem o privilegio de gosar descanço.”, ela dizia “(...) ser muito alegre. Todas as manhãs eu canto. Sou como as aves, que cantam apenas ao amanhecer. De manhã eu estou sempre alegre. A primeira coisa que faço é abrir a janela e contemplar o espaço.” Carolina era uma mulher que, mesmo nas dificuldades, tinha foco para conseguir realizar os seus objetivos. Em nenhum momento ela deixou de lutar pelos seus sonhos. Infelizmente, ter sido uma pessoa determinada não a fez sofrer menos. Por sorte ou destino, encontrou alguém que se interessou por seus relatos e a ajudou a publicar o seu tão sonhado livro.
Ainda que narrasse fatos desoladores, tristes, revoltantes a primeira obra de Carolina Maria de Jesus é de uma leitura fascinante e extremamente agradável. Em certos momentos quando ela narra o cotidiano dos vizinhos é possível soltar algumas risadas. O fato de gostar de ler transformou os relatos que seriam simples em uma prosa poética admirável. A sua obra de denúncia, a sua literatura marginal é transformadora e de relevância incontestável. Não foi por acaso que o livro fez sucesso no Brasil e acabou sendo traduzido para mais de dez línguas. Um sonho que transformou a literatura brasileira e sua vida, mas que não conseguiu mudar a realidade de outros.
O sonho virou "Quarto de Despejo", que denunciava os problemas afligiam a população negra, pobre e marginalizada do século passado, e que ainda hoje se faz presente para os indivíduos que estão na mesma posição dos seus antepassados. Foi uma denúncia que fez sucesso perante o Brasil e o mundo inteiro, mas que não teve soluções significativas, pois ainda há pessoas marginalizadas sofrendo, passando fome e sendo preteridas pelos políticos. Ainda existem negros sofrendo por serem que são. Carolina fez a sua parte, mas quem mais devia trabalhar pela mudança, insiste em olhar para o próprio umbigo e esquece das outras realidades ao seu redor. Principalmente do marginal, que não tem nome, mas tem voto.
No final, Carolina foi esquecida pelas editoras, pelo intelectuais. O seu esquecimento é um símbolo do que a sociedade brasileira faz com os negros e pobres que vivem nesse país. Para você ser lembrado, é preciso fazer algo extraordinário, e depois disso, se acharem que não vale mais apenas, acreditam terem o direito de descartarem você. Como um lixo qualquer jogado em um terreno baldio.
Cabe a nós, os seus semelhantes, não deixá-la cair no esquecimento outra vez. É preciso fazer com que negros, pobres e marginais não se sintam em quartos de despejos espalhados por todo país. Os favelados, com a ajuda de todas as parcelas da sociedade, precisam transformar os seus quartos de despejos em salas de visitas com lustres de cristais, tapetes de veludos e almofadas de cetim.
"Quarto de despejo - Diário de uma Favelada" é mais que recomendável. É uma leitura obrigatória para qualquer pessoa que habite esse vasto mundo.
A pessoa que se arrepende das próprias experiências obstrui o próprio desenvolvimento. Aquele que renega suas próprias experiências põe uma mentira nos lábios da própria vida. É nada mais, nada menos que uma negação da Alma.
De profundis é uma grande carta de Oscar Wilde para o amante que arruinou a sua vida, Alfred Douglas ou carinhosamente chamado de Bosie, escrita quando o autor de O Retrato de Dorian Gray estava na prisão. Nesse extenso relato Wilde relembra os momentos bons e ruins em que compartilhou com seu amigo amante. Também rememora o período dos julgamentos antes de ser preso e prestar serviços forçadamente. Além de divagar sobre questões como tristeza, perdão, alegria e assuntos pertinentes a existência e relações.
Oscar Wilde foi sem dúvida uma pessoa peculiar e extremamente interessante. Não por acaso a sua existência atraia curiosidade de todos. Ser um dândi, com certeza, o fez ser notado. Entretanto, muitas vezes enquanto lia o seu desabafo o autor me pareceu também extremamente esnobe. Ser talentoso e ter qualidades importantes não deveriam dar aval para se arrogante com os outros. Essa é a forma em que muitas vezes ele desqualifica Bosie, que eu não defendo porque afinal foi por causa dele que Wilde acabou sendo preso, apontando que ele era sem imaginação e capacidade para apreciar e entender sobre Arte. O escritor afirmava que ser assim era uma das piores coisas em um ser humano. O que faz sentido já que ele foi um dos grandes nomes em movimento artístico que prezava a estética nas diferentes formas de arte. Apesar de ter conhecimento de sua capacidade e importância em demasia não interferem no julgamento hipócrita e infeliz que o condenou.
Nas primeiras páginas, Wilde enumera todas as mazelas de ter relacionado com Alfred Douglas. De forma magoada e sentida, o autor afirma que entrou em derrocada por se relacionar com alguém tão cheio de ódio. Perdeu a sua família, amigos, toda a sua riqueza, o direito sobre suas artes. O que me frustou em grande medida foi Wilde não ter conseguido se livra de Bosie antes de ir para a cadeia. Ele tinha conhecimento de que estava em um relacionamento que fazia bem a ele e nem para a sua reputação. Wilde aponta os erros e o comportamento deplorável de Bosie inúmeras vezes assim como tenta sem sucesso acabar com a amizade entre eles. A dor e o sofrimento dos relatos são tão vivos que é possível sentir como foi a vivência entre eles. As tentativas frustradas de um relacionamento saudável que acabou indo parar na corte porque Bosie e seu pai, Jonh Douglas, nutriam ódio um pelo outro e Jonh Douglas queria que Wilde pagasse de alguma forma ao comprovar os seus comportamentos pederastas. Essa primeira parte mais focada nesse período é cheio de dor, raiva e tristeza.
Em um outro momento da carta Wilde se mostra mais introspectivo e começa a falar sobre perdão, sentimentos de forma filosófica, arte. Há inúmeras citações de obras de outros autores e de seu próprio trabalho. É possível encontrar tantas outras referências a textos bíblicos. Ele não deixa em nenhum momento o valor estético da vida, da triste e tudo mais de lado. Há sempre um momento para apontar as belezas das coisas. Além de sempre se lembrar dos amigos que sempre estiveram do seu lado no momento em que sua credibilidade foi arruinada. Nessa parte como em uma reflexão sobre sua vida e tudo o que aconteceu Wilde se parece mais tranquilo e até perdoa Bosie, mesmo que as marcas permanecessem, por tudo que fez a ele e depois a abandoná-lo na prisão sendo um péssimo amigo.
Enfim, De profundis é um relato poderoso sobre relações. Filosoficamente bonito, mas de uma tristeza enorme. Uma carta que aponta a hipocrisia de uma sociedade e o sofrimento de ser quem se é. Deixo a minha indicação.