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fevi


Esse livro não é para moralistas. Amara Moira narra sem pudor alguns de seus programas como prostituta. Os primeiros clientes e como se sentia em relação a tudo que estava acontecendo em sua vida. Os conflitos que ela mesmo vivia. Como mulher travesti nunca iria cair nos esteriótipos que eram dignados às mulheres como ela. Não foi bem o que aconteceu.

Essas memórias apresentam um pouco da hipocrisia brasileira, do machismo e patriarcado da nossa sociedade. Os relatos de assédio e violência sexual fazem parte também desses momentos em que ela viveu.

Além de textos mais profundos sobre como mulheres travestis não dignas de amor, que são excelentes, Amara fala também sobre o putafeminismo. Esse seria um conceito de feminismo voltado para a inclusão de prostitutas nas pautas feministas sem a intolerância e preconceito de muitas pessoas sobre mulheres que decidem trabalhar na prostituição. Não nego, fiquei reticente sobre essa questão e talvez tenha entrado no clube de moralistas hipócritas que ela demonstra que existem. Eu preciso me aprofundar mais para ter uma opinião concreta sobre.

Super indico para ampliar a visão sobre tabus da sociedade em que vivemos. No entanto, reafirmo, se você é cheio de pudores esse livro não irá te agradar. A explicação sobre a mudança do título nessa versão me deixou boquiaberto. É surreal.

As Mães não funcionou para mim.

Spoiler
Honestamente, eu vi inúmeros problemas na abordagem dos assuntos que a autora se propôs a trabalhar nesse livro. Ela tenta conversar sobre aborto, suicídio, machismo, violência, abuso sexual. Muitos temas e pouquíssima profundidade. No entanto, o que mais me incomodou foi a forma como ela tratou o aborto e o suicídio. Entendo que na história existe um peso religioso que influenciaria em como os assuntos seriam tratados, mas infelizmente a autora não apresenta nenhum contraponto. Por todo a história há uma insistência em culpabilizar a garota que fez o aborto. Como se o ato já não conferisse um momento de sofrimento. Ao insistir que o personagem masculino, Luke, se referisse ao feto morto como "nosso bebê", a autora insiste em delegar a culpa na mulher. O mesmo acontece com a personagem que comete suicídio: por que ela fez isso? Ela não pensou em sua família antes de se matar, é egoísta. A culpabilização da vítima é maior que qualquer outro ponto. Assuntos sérios como esses não deveriam ser trabalhados somente pela visão moralista de religiões. É um grande desserviço.


A linguagem é simples. Não tem nada de elaborado ou poético. A construção do enredo não possui profundidade. A escolha em priorizar a passagem de tempo no lugar de refletir ou aprofundar os temas escolhidos empobreceu significativamente a história pra mim. Assim, não consegui me conectar com nada que foi apresentado. Nem com os personagens, nem com a história. Acredito que no momento em que vi assuntos importantes sendo tratados por um viés religioso, de culpa, erro e não apresentar uma discussão mais profunda senti que não poderia levar ver como algo relevante.

Em poucos momentos há frases que valham a pena. As Mães é um livro fraco que tenta discutir assuntos importantes, mas não consegue. Enfim, é uma obra dispensável e nada marcante. Apesar disso pretendo ler o segundo livro da autora.

4,5


A Dança dos Dragões é, com certeza, um dos melhores livros de As Crônicas de Gelo e Fogo. Juntamente com o terceiro livro, é claro. Sempre tenho que pontuar o poder de construção de de George R.R. Martin é maravilhoso. Não tem como não ficar imerso no mundo que ele criou. Apesar disso sempre acho que os livros poderiam ter alguns capítulos a menos.

As reviravoltas e os grandes acontecimentos desse quinto livro reacenderam a chama para continuar a leitura. Espero que a principal reviravolta seja verdade. Isso deixaria a luta pelo trono de ferro mais interessante. Acompanhar Daenerys, Tyrion e Arya foi incrível. Também comecei a gostar bem mais de Jon Snow. Ele é o personagem que mais cresce nos livros. Eu comecei odiando e agora gosto muito.

Essa história é tão complexa que duvido que o autor conseguirá terminar ela em mais dois livros. Martin precisa terminar logo essa épica e necessito que seja diferente do que rolou na série televisiva.

Não encontrei o que esperava. Eis o problema de criar expectativas.

Não acho que o livro seja ruim. Até porque se fosse a minha nota, avaliação não seria esta. É bem escrito, mas para mim ele demorou a engrenar. Fiquei esperando por tempo demais pelas reflexões que fazem as pessoas escolherem esse livro como um dos melhores. Pelo menos uma grande maioria.

É triste chegar à conclusão no leito de sua morte que a vida que você viveu não foi aquilo que você esperava. Deve ser uma sensação horrível.

O medo da morte e as suas implicações deixam qualquer um apreensivo e ansioso para ver como irá lidar com toda essa situação quando a sua hora chegar. Acho que o livro deixa bastante claro que precisamos viver da forma que queremos para que no derradeiro final não haja arrependimentos.

Mas como viver dessa forma se as obrigações impostas pela sociedade nos molda a viver de maneira tão direita, confortável e sem o desejo de arriscar. Ivan quis viver da forma que a sociedade impõe para ser bem-quisto, bem-visto e sucedido. Mas não atentou-se ao que realmente desejava. Por isso todo o arrependimento.

No entanto, quem nos garante que viver da forma que queremos irá nos deixar realizados? Será que não morreremos sempre com sensação de que faltou algo ou fizemos demais? E se fosse de outra forma? O ser humano nem sempre parece saber o que quer de verdade.

É um ótimo livro para refletir, mas não é tudo isso.

As cores o tempo e nós é um romance que vai contar a história entre Helena e Rebecca. Elas estudam no mesmo internato e não se dão bem. Até que em determinado momento viram amigas e descobrem um fogo a mais.

Eu gostei bastante de acompanhar o desenvolvimento das duas. Como os capítulos são curtos então as coisas acontecem muito rápido. A relação entre as duas são muito intensas. Acredito que nunca li algo tão forte em se tratando de um romance entre personagens mulheres que se relacionam com mulheres. Também achei o livro bastante sexual, mas nada apelativo. São adolescentes, jovens adultas descobrindo a vida sexual.

Os personagens secundários são incríveis, mas gostaria que tivessem sido mais trabalhados. Assim como o plano de fundo, o contexto. Eu senti um pouco de falta. Sei que o grande personagem é amor intenso entre Helena e Rebecca, mas se houvesse um ambientação maior o livro seria mais incrível. O pouco que aparece é mais para o final do livro e tem um discussão se o golpe de 64 foi ou não golpe. As personagens da classe média alta afirmam que não foi golpe ou que foi um golpe na hora certa porque o país precisava. Como não uma discussão profunda sobre isso acredito que nem deveria ter sido mencionado.

Enfim, é um grande drama com mulheres que amam mulheres no fim da adolescência e início da vida adulta que trás um entretenimento considerável e é mais profundo que muitos livros por aí. Vale a pena a leitura.

3,5

Em Quarenta Dias acompanhamos a história de Alice que se muda a contra gosto de João Pessoa para Porto Alegre para ajudar a filha, Norinha, em uma futura maternidade. Maternidade sempre adiada por causa do futuro profissional da filha e seu marido.

Depois de um jantar em que a filha fala sobre viajar depois que a mãe se muda há uma reviravolta na história e Alice passa quarenta dias perambulando pela capital do Rio Grande do Sul como se fosse uma pessoa sem teto. À princípio ela busca por Cícero Araújo um paraibano que a mãe não tem contato há muito tempo e pede para Alice tentar encontrar e informá-la.

Durante as andanças de Alice vamos acompanhado as diferenças culturais existentes em nosso país. Não só pelo sotaque, mas também pelo comportamento e variações linguísticas, regionalismos. Muito dessas andanças se dá pelo fato de Alice se sentir perdida, sem lar e deslocada longe de sua terra. Lá ela se sentia acolhida, era alguém. Não estava vivendo em uma vida transitória. Aliás, essa vida transitória para ser permanente. Quando olhamos os relatos dos personagens que também vieram do Nordeste do país e se encontram com Alice ao longo de sua jornada em busca de Cícero. Esses personagens que mudaram, transitaram em busca de uma nova vida, que foram atrás de melhorar e crescer longe onde nasceram. Eles mudam, mas nem sempre se sentem acolhidos ou pertencentes em esse novo local. Além disso a saudade de tudo permanece.

Grande parte dessa falta de acolhimento é sentido pela xenofobia e racismo dos polacos e outros habitantes da cidade de Porto Alegre tem perante os nordestinos. Maria Valéria Rezende vai demonstrando isso de inúmeras formas, mas a principal é usando o termo “brasileirinho” para indicar que os nordestinos são diferentes e nem sempre bem-vindos. A branquitude e a xenofobia estão escancaradas. Há uma cena em que Alice tenta contratar uma empregada e uma mulher branca não aceita trabalhar para ela quando percebe de onde ela veio.

Rezende além de discutir sobre os movimentos transitórios dos nordestinos e suas andanças, também aborda a situação dos moradores de rua. O descaso, a união e como eles se viram para se manterem bem ali. Nós vamos descobrindo essas situações a partir dos relatos em que Alice escreve em um caderno da Barbie depois que volta para casa.

Eu acreditei que o livro seria sobre relações familiares, sobre mãe e filha. Mas a guinada da personagem mostrou que seria sobre muito mais. No entanto, fiquei um pouco decepcionado porque não há relatos sobre todos os dias e as poucas lembranças do passado que engrandeceriam a história ficam meio perdidas. O relato sobre o marido que sumiu na ditadura, os pais que morreram cedo. Além disso, o final é corrido porque Alice já se sente satisfeita com a transição, acolhida por Milena, a empregada que também é “brasileirinha” como ela.

Enfim, é um livro que surpreende com a mudança que toma, mas que infelizmente fica perdido com o final acelerado. Mas o enredo é envolvente. Acredito que valha a pena ler.

A Reivindicação dos direitos da mulher apresenta o argumento de que a não educação formal das mulheres fariam que elas permanecessem na ignorância. Portanto, a sociedade não poderia cobrar comportamentos racionais e virtudes das mulheres já que elas não estariam sendo instruídas e estimuladas a pensar de forma coerente. Já que determinados comportamentos estariam relacionados a instrução.

O pensamento e o questionamentos de Mary Wollstonecraft não terminam ali. Apesar de a educação ser o objetivo principal que desencadearia melhoras significativas. No entanto, fiquei questionando quando a autora coloca muito a moral e a religião para validar algumas outras discussões sobre os "comportamentos atrasados" femininos. Claro que não posso cometer anacronismo aqui e dizer que as escolhas dela estavam erradas porque a sociedade em que ela viveu é completamente diferente da que vivo hoje. Compreendo que a sua vivência em determinado período com influência religiosa poderosa faria diferença no seu posicionamento ainda mais quando ela apresenta argumentos sobre virtudes e a moral.

Independente dos apontamentos que discordo, é preciso entender o pioneirismo de Wollstonecraft e a sua importância para o pensamento feminista. A suas indagações e apontamentos, com certeza, valeram de forma significativa para a evolução e a luta para os direitos das mulheres ao redor do mundo partindo do mais básico que foi sistematicamente negado por anos: a educação formal e racional.

Bichas brasileiras possui pequenas biografias de varia personalidades da comunidade LGBTQIA+. São textinhos que mostram a história e a importância da vivência de cada um deles e delas para a nossa comunidade. É uma homenagem e um lembrete que temos uma história que vem de muito tempo e que precisamos a todo instante lembrar de que somos importantes. É essencial enaltecer os nossos.


Pequeno Manual Antirracista é perfeito no que se propõe: ser um pequeno guia de entrada para iniciar debates e fazer com que pessoas brancas e de outras etnias atuem de forma prática na luta antirracista. Porque como é dito no livro o racismo é uma problemática branca. Portanto, é necessário e imprescindível a participação delas na luta.

Djamila Ribeiro propõe questões em que as pessoas precisam refletir e, principalmente, agir de forma ativa sobre as mazelas da discriminação racial em nosso país. Ser antirracista é agir de forma humanizada. Esse pequeno manual não é uma tentativa de educar pessoas brancas ou de outras etnias. Para se tornar antirracista é preciso fazer um autoconhecimento e prosseguir em busca de informações para quebrar e amenizar as atitudes violentas em questões raciais que estruturam a sociedade brasileira.

Entre dicas sobre reconhecer sua branquintude, conhecer a produção cultural de pessoas negras, combater a violência racial, enxergar a negritude, apoiar medidas de políticas educacionais afirmativas há outros inúmeros conselhos e alertas apresentados pela autora baseados em dados históricos, numéricos e em experiência própria. É preciso que estejamos atentos e lute contra atitudes racistas.

Ribeiro compartilha conhecimento e estratégias. Cabe aos que leem e que desejam mudanças, praticar. Ficar parado não muda sistema. Toda a bibliografia usada pela autora e uma pequena biografia de cada autor e autora citados no livro aparecem nas últimas páginas da obra. É uma grande dica para ir atrás de informações e novos conhecimentos para ser antirracista na prática. Não há dúvidas, deixo a recomendação para todo brasileiro que quer viver em um país mais justo.

A Beleza é uma ferida tem todos os elementos de uma grande obra que permeia o realismo mágico e quem lê não pode negar. Essa parte da construção de Eka Kurniawan é fenomenal e foi o que me fez mantê-lo como um livro bom.

Com um início curioso e atrativo começamos a conhecer Dewi Ayu, a personagem que dá origem a história. Ao longo dos capítulos vamos entrando em contato com a história de outros personagens masculinos e outras mulheres, as filhas de Dewi Ayu entre elas, além de lendas e a história da Indonésia. Do seu período de colonizada pela Holanda, ascensão e queda do comunismo, inúmeros massacres, invasão japonesa durante a Segunda Guerra Mundial entre tantos acontecimentos.

A história é bem construída e bem narrada, mas peca pelo excesso. Excesso de misoginia e excesso de construção de alguns personagens e passagens longas sobre os períodos. Há personagens femininas que são estupradas inúmeras vezes. Durante o primeiro estupro é no período da segunda guerra e você tem uma contextualização, mas os outros são apenas para mostrar o poder do patriarcado. Para mim, não havia necessidade de narrar ou mostrar isso mais de uma vez. O pior é perceber que o autor tinha consciência disso porque em outras passagens e até mesmo no início ele mostra que a pior coisa é colocar filhas mulheres no mundo por causa de homens. Além de colocar consciência em um personagem que casa com uma criança. Ele usa estupro como recurso narrativo quando não precisava porque o que ele construiu já era interessante o suficiente. Para além disso, há longas passagens sobre os períodos históricos que poderiam ser mais curtos.

A história não deixa de ser interessante, mas para mim, a construção e a misoginia tomaram um tamanho maior na minha percepção que influenciaram como eu a absorvi. Não é uma obra que eu recomendaria para quem já sofreu abuso sexual ou outros tipos de violência. Talvez para quem deseja fugir de literatura ocidental é uma boa pedida.