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rolandosmedeiros

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''I will show you fear in a handful of dust.''


O anúncio da série de Sandman [Postscriptum de 2024: ainda não assisti] me impulsionou a fazer uma releitura, e vou aproveitar para ir atualizando aqui minha passagem pelas edições.

Nunca me interessei por heróis, por isso Sandman foi a primeira HQ pela qual eu consegui gostar verdade. Eu já lia mangás, mas até esse #1 de Sandman devia ter passado toda a minha adolescência sem ler uma unidade de quadrinho. Tinha um preconceito bobo com o formato. Foi então que Sandman, principalmente a edição definitiva que encontrei por aí, nas interwerbs, mudou essa história.

O Sono dos Justos é mais que um início com o pé direito. A abertura é interessantíssima, marcante, intrigante desde as primeiras páginas. Tem uma aura de horror permeando essas primeiras histórias que é muito magnetizante (como você pode perceber pela capa). Já ouvi dizer que para gostar de Sandman você devia entender todas aquelas referências a literatura, cultura popular, mitologia… mentira, eu me apaixonei por Sandman sem ter bagagem nenhuma de coisa nenhuma. Pensando bem, o mínimo de bagagem que eu tinha era já ter lido Deuses Americanos (também por causa da série), então talvez isso tenha facilitado, me deixando predisposto à mistura entre mundo moderno e elementos fantásticos que o Gaiman já mostrara para mim, naquele livro, gostar de fazer. Mas, nada além disso.

O objetivo dessa edição é apresentar o Sandman: aprendemos sobre suas capacidades, mitos ao redor de sua figura, e a importância dele por meio do impacto que sua ausência causa no mundo, influenciando muitos eventos importantes do Século XX.

A arte (Sam Kieth e Mike Drigenberg) tem aquele traço antigo forte (ou vintage, melhor dizendo), mas há painéis muito inteligentes e criativos; a escrita e os diálogos também são bem acima da média, tudo é muito cuidadoso, completo e instigante, principalmente o foco da edição: as histórias paralelas, ligadas unicamente pelo fato do Sonho ter sido aprisionado por um coven de feiticeiros. Eles queriam capturar outro membro de sua família, a irmã mais velha do Sonho, a Morte.

''For a moment Roderick Burgess is scared. He thinks of the effrontery of his action: to capture Death... to bind the Reaper... For a moment he hesitates. But only for a moment. The words of the spell toll inside his head. Burgess realizes that he couldn't stop now. Not even if he wanted to… ''


Detalhe para uma das primeiras cenas após a captura do Sonho, onde o desenho nos coloca visualmente, em primeira pessoa, no mesmo lugar que o Perpétuo, encarcerado dentro de um orbe com arte totalmente distorcida, enquanto a narrativa gira o mundo mostrando as consequências da falta do Sonho no mundo. Uma escolha muito inteligente, que une a escrita e o desenho em uma simbiose, e é uma das melhores cenas da primeira edição, junto da sequência das últimas páginas.

Gaiman mistura ficção e realidade, coincidindo fatos históricos e utilizando de pessoas reais para misturar tudo na sua narrativa. Prosseguimos, então, com um narrador onisciente, apresentando tudo que se passou enquanto o Sonho esteve aprisionado. O tempo, para aquele Perpétuo, é experimentado diferente, mas ainda o incomoda se ver preso, nu, dentro de uma caixa de vidro, sem comer ou dormir.

Daí, as consequências no mundo.
SpoilerEnquanto Daniel Bustamante começa a fazer de tudo para se manter desperto, tornando-se praticamente um morto que anda. Stefan, um adolescente na guerra, permanece tanto tempo em vigília que comete suicídio. Algumas pessoas ao redor do mundo, como Ellie Marsten acorda apenas duas vezes nos últimos dez anos, sempre clamando por sua mãe, e pensa ainda ter oito anos. Unity Kinkaid permanece presa num sono eterno, e para piorar, é estuprada, e tem um bebê, dado a adoção, tudo durante o sono.


A “Doença do Sono” se espalha, alguns apontam a causa para a guerra, outros para um vírus. Mas Roderick Burgess, o Lorde Magus, sabe muito bem a causa. A atmosfera sombria e melancólica dessas partes é incrível. Essa doença, também chamada de Encefalite Letárgica Epidêmica, realmente existiu e foi uma verdadeira epidemia na Europa.

SpoilerLorde Magus está a beira da morte, amargurado pelo envelhecimento. Sonho observa até que seu captor finalmente envelheça e morra, mas tira pouco prazer disso. Quem assume é seu filho, Alex, e a partir daí, por culpa de seu pai, tudo que Alex pode fazer é manter o Sonho preso e esperar até que ele se torne problema de outra pessoa, entregando as rédeas da organização para Paul McGuire, seu amigo de longa data.

Após mais de sete décadas de confinamento, um dos guardas pega no sono, e isso é a oportunidade de ouro que Morfeu precisava. Inicia-se então o clímax da edição: devido ao descuido do guarda, o Sonho finalmente consegue se libertar. Vemos ele pela primeira vez movimentando o enredo, demonstrando o seu poder como Perpétuo, mas, de certa maneira se aproximando das características humanas, já que seus primeiros desejos são se alimentar, se vestir e se vingar do homem que o prendeu. Mesmo além do tempo, o Sonho ainda é rancoroso e vingativo.


A sequência final é uma das melhores de Prelúdios e Noturnos (Primeiro Volume), com uma sequência labiríntica nos corredores da mansão onírica de Alex, numa belíssima montagem de envelhecimento e sentimentos humanos que fluem e passam, naquela perspectiva, em segundos.

SpoilerAlex é seguido por um gato (que é o próprio sonho, e referência a uma edição futura) na estranha mansão. Ele desce até o porão, e a cada quadro ele vai rejuvenescendo (um paralelo com o desejo da imortalidade de seu pai), e quando dá enfim de frente com Morfeu, não passa de uma criança assustada. Em uma sequência de quadros maravilhosos, o Sonho finalmente fala diretamente pela primeira vez na edição, e é a vez de Alex cair em silêncio. Invertendo os papéis e encerrando em um ciclo perfeito.

O pesadelo do Eterno Despertar que Sandman joga sobre Alex é terrível, e a experiência do homem é reproduzida no leitor: você pensa que cada página é real, apenas para descobrir que não é. A sequência é de sonhos dentro de sonhos. No fim, o filho paga pelos pecados do pai, e a amoralidade do Morfeu, pelo menos aqui, torna a história dessa edição ainda melhor.

Devaneio vaga de sonho em sonho, alimentando-se com comida dos sonhos. Nesse meio tempo, as pessoas afetadas pela doença começam a despertar. Recobrando uma fração de sua força, ele decide recuperar as suas ferramentes, que Magus havia roubado, para reconstruir seu palácio, que agora não passa de escombros... É missão para as próximas edições.


Na minha opinião, Gaiman acertou em todos os aspectos. A escrita, horror, mistério, melancolia, sensibilidade, personagens. A vontade de devorar todas as edições de uma só vez é gigantesca, mas vou me segurar, para ir me atualizando aos poucos por aqui. Ah, e deixo minha recomendação, se também tinha o mesmo preconceito que eu com quadrinhos, vá ler Sandman!