fevi's Reviews (834)


Longa da Árvore é um livro sensacional. É uma obra sensível e extremamente necessária para pessoas que não convivem com grandes diferenças ao longo da vida. Se eu pudesse resumir esse livro em poucas palavras diria que ele é uma viagem sobre empatia e a aceitação da não norma.

O livro é uma imersão nas diferenças que filhos possuem em relação aos pais que são vistos pelo mundo como pessoas "normais". Nós vemos o sofrimento, a luta, as alegrias, as tristezas, a força e muitos outros sentimentos, até mesmo negativos, de mães e pais em relação aos seus rebentos. É narrado episódios em pais não conseguiram aguentar as diferenças e acabaram abandonando e até mesmo matando os próprios filhos.

Andrew Solomon, o autor do livro, falou sobre vários grupos de pessoas com características bem marcantes e que diferem de forma significativa do que ainda é considerado padrão pela sociedade. Os personagens eram pais de surdos, anões, pessoas com síndrome de down, autistas, esquizofrênicos, deficientes de uma forma geral, prodígios (pessoas dotadas), filhos provenientes de estupro, filhos que cometeram crimes e transgêneros. O autor ainda fazia paralelo da sua relação com os próprios pais por um homem gay.

O livro bate muito na questão da moral e da ética. O que deve ser feito? Abortar, abandonar ou matar um filho por ele ser diferente da mãe e do pai é certo ou errado? Quais são as soluções para isso? Os sofrimentos dos filhos como proceder em relação a isso? E os sofrimentos dos pais? Você se pega pensando muito nesses assuntos. Em vários momentos se acha no poder de dizer que isso ou aquilo deve ser feito. Ou que resolveria de tal forma. No entanto, se você nunca presenciou situação parecida ou igual fica difícil de opinar. Mas sempre é necessário pensar nos direitos humanos. No que é melhor para aqueles que não vivem junto a norma.

Ao ler Longe da Árvore você percebe a quantidade de pessoas oportunistas há no mundo. E o modo como elas tratam o sofrimento dos outros. O quanto a industria farmacêutica e empresas nem sempre pensam no bem do paciente. Da mesma forma que há médicos e psicólogos despreparados para cuidar de pessoas. Além de como a religião pode ser a solução ou mesmo a destruição de uma família.

Não tem como você ler esse livro e não se sentir de alguma forma tocado. É um livro sobre a humanidade e as suas diferentes formas. Apesar de tanto sofrimento, desorientação e também um livro sobre amor e aceitação. Sobre ver a alegria na tragédia como o próprio autor diz. Para quem lê e nunca viveu alguma situação próxima a essa é meio que sair da sua bolha e adquirir um grande aprendizado. Foi realmente isso que senti. Essa leitura me acrescentou muito conhecimento e me fez questionar inúmeros pensamentos. Tirou-me da zona de conforto mostrando outras realidades que eu nem ao menos sabia que existia. Isso é extremamente gratificante.

Longe da Árvore me atraiu por causa do título e porque eu sentia/sinto diferente e longe das pessoas de quem eu vim, mas me conquistou por trazer muito mais daquilo que eu poderia imaginar. O livro tem alguns defeitos, mas que o autor deixa claro em algumas partes do livro. Gostaria de ver algo dividido de forma mais racial e social. Aparecem pessoas negras e de outras etnias minoritárias, mas a grande maioria são de pessoas brancas e ricas. Isso nos traz uma apenas um panorama da situação que pode ser ainda mais agravante. Infelizmente pude perceber que as minorias étnicas (negros e latinos) aparecem com mais presença em capítulos que tratam de estupros e crimes. Mesmo assim não tiro a importância desse livro e gostaria que algo desse tipo fosse feito no Brasil.

Nesse período de mais de um ano lendo esse livro pude perceber o quanto cresci e aprendi. Espero poder fazer a diferença na sociedade com o que vi aqui. O mais importante é começar a respeitar as pessoas do jeito que elas são sem querer curá-las de algo que não precisa ser curado. É importante aprender a entender a lógica das mães e dos pais sem sair julgando por aí. É preciso manter a dignidade do ser humano acima de tudo.

Sem sombra de dúvidas recomendo a leitura.
emotional funny hopeful lighthearted reflective medium-paced

Anarquistas, graças a Deus é simplesmente um deleite. Uma leitura prazerosa e com tanta leveza que não há como achar essas memórias, escritas por Zélia Gattai sobre sua infância, algo enfadonho. Não é. É divertido enxergar o início do século XX pelos olhos de uma criança.

Sem datar e sem ordem cronológica Gattai narra em pequenos capítulos acontecimentos que marcaram a sua infância. Ela fala da vinda da família para o Brasil e como eles se estabeleceram até chegar em São Paulo. A narração pelo viés da pequena Zélia Gattai conta causos envolvendo o pai Enersto, que adorava automobilismo, a mãe Angelina, uma amante da música e da literatura, além das irmãs e irmãos, Wanda, Vera, Remo e Tito. Também com Maria Negra, a empregada, e o avô que moravam com ela em São Paulo. São histórias, em sua maioria, engraçadas, mas também tem momentos tristes e pesados como a morte de uma amiga, o assassinato dos amigos dos pais, a revolução de 24 em São Paulo.

Por sinal, essas memórias de Gattai é certamente um documento histórico bem valioso sobre a cidade de São Paulo e as suas transformações ao longo dos anos no início do século XX. As suas descrições sobre os bairros em que transitava, os acontecimentos que vivia e as mudanças significativas da cidade é um diferencial expressivo dos relatos de Zélia Gattai.

A leitura agradou-me fortemente. Lembrou-me em certas ocasiões o ficcional Éramos Seis de Maria José Dupré, um livro que amo e que se passa em São Paulo. Enfim, é livro maravilhoso e super indico. Com certeza irei ler mais Zélia Gattai.

Há episódios na história da humanidade em que vemos o quanto as pessoas podem ser extremamente perversas. É o que Han Kang nos mostra em Atos Humanos. 

O início do livro é forte e difícil de digerir. É muito incômodo. O restante do livro é menos gráfico, mas não menos do doloroso. Apesar de curtido a história, as diferentes perspectivas, narradores em cada capítulo algo não me conquistou completamente. Gosto do que li, mas falta algo. Ainda assim acho os três primeiros capítulos arrebatadores.

#BingoLitNegra #LeiaNegros

Kabengele Munanga nos traz nesse pequeno livro a origem do termo Negritude. Ele faz um panorama histórico, conceitos, divergências e críticas. Apesar de pequeno e uma apresentação não tão profunda o autor já garante uma discussão relevante sobre o tema.

É um livro sobre o negro e a sua tentativa de lutar contra a assimilação imposta pelo colonialismo e imperialismo. É uma obra para ser relida e porta de entrada para discussões mais profundas sobre o tema. Discordo de alguns pontos, mas nada que me faça odiar ou menosprezar o conteúdo.
emotional funny hopeful inspiring lighthearted reflective relaxing fast-paced
Plot or Character Driven: Character
Strong character development: Yes
Loveable characters: Complicated
Diverse cast of characters: Yes
Flaws of characters a main focus: Yes

Gay de Família é uma novela extremamente divertida. Felipe Fagundes constrói uma história em que personagens LGBTs e crianças convivem em um espaço de forma extremamente harmoniosa. Não há aqui uma tentativa de construir espaço onde pessoas de bem vencem destilando o seu ódio. A intenção do autor é te matar de tanto rir. Eu tenho certeza que ele vai conseguir arrancar boas gargalhadas de quem ler.

Nós acompanhamos Diego durante um dia cuidando dos sobrinhos que ele nunca conheceu. Em um texto recheado de piadas e referências à cultura pop nacional EXTREMAMENTE bem empregadas, elas não estão jogadas ali só porque o autor gosta ou alguém vai se identificar, acompanhamos as estripulias das crianças e o desespero do tio. É um texto leve, fluído e cheio de deboche. O mundinho LGBT vai adorar. Apesar de ser uma história cômica em sua maior parte há uma importante reflexão sobre o que é ser família e acolhimento.

Mais do que ser divertido Gay de Família é um livro sobre a importância do afeto e de laços. Além de uma representação importante e positiva sobre a convivência de crianças e pessoas LGBTs. Apesar de ser fofinha, não é uma história para crianças. O vocabulário e algumas descrições são bem adultas. Enfim, deixo a recomendação para quem está procurando algo genuinamente divertido passar o tempo. Tenho certeza que vai ser uma ótima leitura para tirar de uma ressaca literária. 

Esse comentário é totalmente questionável já que eu sou amigo do autor e fui leitor beta. Isso não tira o talento dele como escritor e nem afeta a minha experiência como leitor. Então tudo que eu odiei ele já sabe. Inclusive, eu ODIAVA o Diego. Ele era muito Meninas Malvadas para mim, mas agora gosto dele. No entanto, as crianças são as minhas preferidas. Só para deixar claro, eu não fui coagido a escrever esse comentário elogioso. Estou apenas enaltecendo o talento do meu amigo e saboreando a felicidade dele com essa nova conquista.

Leiam Gay de Família!!!!! <3
challenging reflective fast-paced
Plot or Character Driven: A mix
Strong character development: Complicated
Loveable characters: No
Diverse cast of characters: N/A
Flaws of characters a main focus: Yes

A loucura não é déspota, mas um homem qualquer com poder é capaz de agir das maneiras mais insanas em busca de exercer a sua influência sobre os outros. 

Gosto do ritmo de O Alienista, mas não curto muitas passagens. Ainda assim acho que vale a pena a leitura. 
emotional reflective sad medium-paced
Plot or Character Driven: Character
Strong character development: Complicated
Loveable characters: Yes
Diverse cast of characters: Yes
Flaws of characters a main focus: No

Nesta história acompanhamos Lily, uma adolescente norte-americana de origem chinesa, que está se descobrindo com uma pessoa lésbica. O enredo se passa na década de 50 em São Francisco nos Estados Unidos. 

É uma história bem simples, mas gostosa de acompanhar. No entanto, acho que demora muito para acontecer algumas coisas. Para mim, a história melhora consideravelmente nas duas últimas partes.

Gosto do contexto político apresentado e das alfinetadas da autora, mas gostaria de ter visto mais esse contexto na obra. Principalmente sobre o comunismo. 

Enfim, Last Night at the Telegraph Club é um bom livro. Recomendo para quem procura um romance lésbico tranquilo. 
dark emotional tense medium-paced
Plot or Character Driven: Character
Strong character development: Yes
Loveable characters: No
Diverse cast of characters: No
Flaws of characters a main focus: Yes

A construção dessa história me faz acreditar que ela é muito menos sobre amor e mais sobre lidar com os próprios demônios, além dos ataques de fora. A questão é que ninguém lida bem nem com os ataques e muito menos com suas versões sujas e falhas. 

Os protagonistas criam laços que nem sempre são claros e são construídos em um ambiente hostil que os transformam em pessoas que conseguem lidar com os sentimentos que possuem. De forma geracional continuam repetindo as violências que sofreram. 

O enredo de O Morro dos Ventos Uivantes, com certeza, poderia ser mais interessante. Apesar disso a construção dos personagens é tão potente que suprime em vários momentos as falhas do enredo. A complexidade de Catherine, Heathcliff é de se admirar. Não só a deles, mas de todos que estão ali. 

Faltou pouco para ser um novelão. Mas ainda assim é entretenimento puro. Li achando que não ia gostar, mas acabei me impressionando. É um livro super bem escrito com personagens odiáveis, mas que captura a nossa atenção e o desejo de descobrir o que virá pela frente. Fica a recomendação.