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rolandosmedeiros 's review for:

Pai Contra Mãe by Machado de Assis
3.0

Releitura de 2022.

Li um livro de ensaios recentemente, do Luís Augusto Fischer, que demonstrava as semelhanças entre o Borges e o Machado. Um dos pontos o Professor toca, por alto, é aquilo que normalmente se fala (e que atualmente está em cheque): de que o Machado deixou para tratar da questão da escravidão só em seus anos mais maduros. Lendo essa seção lá, me deu vontade de reler esse conto aqui, então lá (ou aqui) me fui.

O comentário que deixei no Goodreads, da primeira vez que li, foi esse: "um conto essencialmente brasileiro, feito de imagens carregadas e justaposições fortes, que escancaram a hipocrisia nacional através da aproximação de um episódio de violência escravista que não recorre a um moralismo barato ou a um maniqueísmo infantil."

A primeira coisa que me saltou aos olhos, desta segunda ou terceira vez que leio, foi o narrador. O onisciente clássico, quase intrometido, que reconta uma história que já sabe o seu final a nós; e, sobretudo, toda a ambiguidade com que ele conta a história. Nas primeiras páginas, você fica em dúvida quanto ao tom com que ele trata a escravidão: "Era grotesca tal máscara, mas a ordem social e humana nem sempre se alcança sem o grotesco", e um pouco mais a frente, é menos rijo, e muito irônico, tonteando ainda mais o leitor, no mesmo assunto: "Eram muitos, e nem todos gostavam da escravidão. Sucedia ocasionalmente apanharem pancada, e nem todos gostavam de apanhar pancada."

Inicialmente, o Machado parece até divagar com o narrador no relato , mas vai aos poucos ligando os parágrafos iniciais com o ofício de Candinho, central à narrativa; coloca, explicitamente, que não é um ofício puramente fruto da vileza, e sim da pobreza, da inaptidão do homem; no entanto, já ai, há o contraste com a conclusão: se a profissão por si só não representa da maldade de um homem, o ato final sim, onde (e aqui me lembro de outro conto dele, o Enfermeiro) o Candinho sabe o que fez mas busca (e o narrador vai com ele) de múltiplas formas se eximir da culpa.

A ideia de que nossa família vem sempre em primeiro lugar e, como supracitado, as cenas ligeiramente anteriores e posteriores ao acontecimento derradeiro com a escrava (o aborto) se empilham no tal Pai contra Mãe do título: "— Você é que tem culpa. Quem lhe manda fazer filhos e fugir depois? perguntou Cândido Neves." A transferência de culpa autoexplicativa. E o famoso: " —Nem todas as crianças vingam, bateu-lhe o coração." e geram outros significados. Toda a primeira parte do conto, relatando a vida e a situação do Candinho, não me parece agora tão longe do ponto central onde o Machado quer chegar, e acaba que juntando tudo, a crítica, na minha visão, pesa mais para o lado do caçador de escravos fugidos do que à condição humana (a última, minha interpretação na primeira leitura).

Estes fatos, se por si só já não dão uma dose de "maldade", ao menos tiram a auréola de homem ignorante que não sabe, a fundo, o que faz e que está apenas colocando a família dele em primeiro lugar e nada mais. Tudo é mais complicado e intricado do que aparenta ser inicialmente.

O impacto da primeira leitura, no entanto, ainda é fortíssimo: o Machado, com toda sua ironia que despista e tonteia quem vai até ele procurando moralismo ou maniqueísmo bobo, faz, com uma levada única, praticamente um conto de horror situado no período da escravidão.

✲ 3.5/5.0