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4.0

4,5

Quando li Quarto de Despejo de Carolina Maria de Jesus o impacto foi enorme. Algumas vezes me peguei chorando. Os seus relatos sobre sua sobrevivência na favela do Canindé são extremamente dolorosos, principalmente, quando ela mencionava os momentos em que ela e seus filhos passavam fome. É de partir o coração. Dói em mim que nunca passei fome. Essas dores e impactos não foram grandes em Casa de Alvenaria e fico feliz por isso. Novamente, em forma de diário, Carolina como está sendo a mudança em sua vida depois de seu primeiro livro ter sido publicado. As dores da fome e da pobreza não prevalecem mais aqui. Mas isso não que dizer que não há outros infortúnios ou chateações.

Em Casa de Alvenaria acompanhamos a ascensão de Carolina e sua família, a mudança do barraco e favela para uma casa mais acolhedora. Além dos relatos de suas viagens para divulgar o livro e o seu contato com a alta sociedade brasileira. Carolina diz inúmeras vezes que saiu do inferno e foi para o céu com o sucesso das vendas de seus livros. Ela e sua família não passa mais fome ou necessidade daquilo que é básico. Estão vivendo em ascensão. A mudança de vida da autora não tira a consciência de classe incrivelmente forte que ela possui. Em inúmeras passagens desse segundo livro é possível ver a sua preocupação para com aqueles que ainda residem nas favelas, com os trabalhadores que ganham pouco e vivem fazendo greves. Os pensamentos possuem um viés comunista. Em determinado momento a questionam sobre o seu posicionamento político, se ela era comunista, ela diz que não porque nunca leu sobre. Acredito que Carolina não precisaria afirmar-se como uma pessoa comunista, uma pessoa de esquerda. A sua vivência, o seu conhecimento sobre a vida e sobre como os políticos, os empresários e o capitalismo tratam os mais pobres sempre foram claros para ela. Ela sabia que os pobres existiam porque os mais afortunados não intercediam e, sim, exploravam os mais necessitados. Casa de Alvenaria permanece extremamente político.

Gostei muito de ler a mudança de ar de Carolina, dos seus rolês com os granfinos. Pareceu-me que ela não se sentia tão deslocada. Sempre elogiava a forma como era tratada, dos restaurantes chiques ia, das pessoas com que conversava. Além disso, ela viajou bastante com o sucesso das vendas do livro. No entanto, nem tudo foi um mar de rosas. Inúmeras vezes ela relata o cansaço depois desses momentos de alegria. Esse não era o único momento que a deixava para baixo. Ela relata que muitas pessoas iam até ela pedir dinheiro ou outras formas de ajuda. Eram valores exorbitantes. Ela estava ganhando bem, mas não tinha virado milionária. Apesar disso, ela ajudou muitos dos que a procuraram. Ela sabia que de alguma poderia ajudá-los. Outro momento que oscilava bastante seu humor era sua relação com Audálio Dantas, o jornalista que a ajudou a publicar Quarto de Despejo. Ela conta que muitas vezes sentia-se como uma escrava quando se relacionavam. Ele parecia ser o seu senhor e também não gostavam quando ele afirmava que ela gastava muito do dinheiro que ganhava. Dantas a ajudava na parte financeira de seus ganhos.

A segunda obra de Carolina Maria de Jesus tem muitos outros momentos que martelam na minha cabeça. A autora queria seguir outras carreiras, estava com medo de escrever esse livro e relatar suas experiências com os ricos, os favelados que não gostavam mais dela. Além, é claro, de todo racismo que permanece já que ela era uma mulher preta retinta. Há passagens dela sofrendo racismo aqui e também há ela agradecendo por não existir um racismo tão forte no Brasil como havia nos EUA e em outros países. Infelizmente esse pensamento, com certeza, é obra do mito da democracia racial. Os momentos de felicidade também são inúmeros a felicidade em ver os filhos bem e sem fome, o seu livro publicado e ganhando o mundo, as entrevistas que deu. Enfim, Casa de Alvenaria é uma sequência feliz, menos impactante, mas tão poderoso quanto Quarto de Despejo. É uma obra que despertou ainda mais a minha vontade de conhecer não só a obra, mas principalmente a vida Carolina. É uma obra que recomendo sem questionar.