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rolandosmedeiros 's review for:
Não podia pedir um complemento melhor à leitura do Lazarillo de Tormes. Mudou e engrandeceu a visão que eu tinha desse livro que era tido como um dos Clássicos Hispânicos, e que depois desse minucioso trabalho crítico, o coloco, na verdade, entre os Clássicos Universais; é uma coluna no museu do Romance Moderno, relacionado e indissociável com a economia e a sociedade. A obra nasce junto do desenvolvimento de uma burocracia patrimonial, pré-capitalista, nas margens da renascença — em uma Toledo que vivia a economia do lucro!
O Lazarillo, com o picaresco, traz consigo um novo estoque de metáforas, e talvez até uma nova forma literária acidental (a divisão em tratados/capítulos não foi concebida originalmente pelo autor da epístola), desenvolvendo-se a partir de uma nova diversidade estilística, social e linguística; rompendo, mas não deixando de se apoiar, nos Romances de Cavalaria que o precediam. O Giancarlo ilustra isso muito bem evocando uma imagem mais ou menos assim: o Picaresco chicoteia o Romance de Cavalaria, ainda que montado em cima dele.
Precede o Zola, o Dickens, e outros, atendo-se à história individual, não grandiosa, tendenciando a explorar as cenas humanas. "A narração deve parar só porque nenhuma ação visível acontece? O descanso, o sono, a futilidade, a preguiça, a exaustão física, e muitas outras maneiras de se fazer nada ou muito pouco, fazem parte da existência humana; a bem dizer, são elas que sustentam nossa existência." O Picaresco aproxima a História da Estória; a vida de Lázaro, mesmo antes da sua popularidade, já se entrelaçava com a cultura popular, representando no livro uma Toledo bem conhecida, intimamente, pelo povo leitor do romance.
O Giancarlo Maiorino é cirúrgico no assunto que delimitou, e entra em muito mais detalhes e conceitos que não citarei apenas para não me alongar, mas que valem muito a pena de serem lidos; vale, também, a nota de que ele ainda termina o trabalho com perguntas interessantes e uma projeção que abre ainda mais o escopo das suas interessantes questões.
Mira, logo, uma outra renascença, não da alta cultura, mas da cultura popular, a renascença vista pelo prisma dos leitores, dos pobres, dos pícaros.
A renascença como a conhecemos, é a renascença de quem?!
A escrita, no geral, é muito boa, dando espaço até para boas imagens, frases e metáforas. A bibliografia, é extensa. Deixo algumas passagens e notas, em livre tradução:
— "a carne da casta pode vir a ser o veneno da classe"
— No Enchiridon de Erasmus, para retratar uma nova maneira de viver: "encorajemo-nos a adquirir uma propriedade; se não tivermos nada não seremos capazes de viver (...)" é A tal da ascensão da propriedade privada indissociável ao surgimento do gênero romanesco.
— "No limiar da sobrevivência, todo trabalho mal-pago é melhor que nenhum-trabalho; e a narrativa picaresca rascunhava cenários de completa miséria onde qualquer trabalho que tornava a sobrevivência possível era visto como uma benção."
— Lázaro garante uma renda estável em troca da depreciação moral, ele troca o matrimónio pelo patrimonio. A sombra do picaresco é tanto uma paródia tanto das classes quanto do sistema de castas.
— "Não há nada em nossos corpos que não tenha sido outra coisa ou não tenha uma história para contar. (...) Nossas meias são lenços mas já foram toalhas, e antes disso, camisas, descendentes de lençois, e que no futuro talvez se tornem papel."
— “O foco do picaresco na imanência e na topografia da existência levanta uma questão. Quando a vida é reduzida ao cotidiano, a narração também deve esmorecer? Ou ela ainda deve operar sob um disfarce que os tradicionais conceitos de mimésis descartam como irrelevantes?"
— O picaresco explora bastante bem a relação entre a fome, a linguagem, e os aspectos sociais; o estômago vazio modula tudo, inclusive a mimésis, a presentação, que até virtualmente o alimenta; órgão utilizado para a fala, afinal, é o mesmo por onde nos alimentamos.
- [Vive-se em] Uma sociedade onde a obtenção de alimento exausta a maior parte do potencial humano.
- "Cavalaria Villana ou a baixa nobreza, cujas posses comumente não excediam um cavalo e uma armadura"
O Lazarillo, com o picaresco, traz consigo um novo estoque de metáforas, e talvez até uma nova forma literária acidental (a divisão em tratados/capítulos não foi concebida originalmente pelo autor da epístola), desenvolvendo-se a partir de uma nova diversidade estilística, social e linguística; rompendo, mas não deixando de se apoiar, nos Romances de Cavalaria que o precediam. O Giancarlo ilustra isso muito bem evocando uma imagem mais ou menos assim: o Picaresco chicoteia o Romance de Cavalaria, ainda que montado em cima dele.
Precede o Zola, o Dickens, e outros, atendo-se à história individual, não grandiosa, tendenciando a explorar as cenas humanas. "A narração deve parar só porque nenhuma ação visível acontece? O descanso, o sono, a futilidade, a preguiça, a exaustão física, e muitas outras maneiras de se fazer nada ou muito pouco, fazem parte da existência humana; a bem dizer, são elas que sustentam nossa existência." O Picaresco aproxima a História da Estória; a vida de Lázaro, mesmo antes da sua popularidade, já se entrelaçava com a cultura popular, representando no livro uma Toledo bem conhecida, intimamente, pelo povo leitor do romance.
O Giancarlo Maiorino é cirúrgico no assunto que delimitou, e entra em muito mais detalhes e conceitos que não citarei apenas para não me alongar, mas que valem muito a pena de serem lidos; vale, também, a nota de que ele ainda termina o trabalho com perguntas interessantes e uma projeção que abre ainda mais o escopo das suas interessantes questões.
Mira, logo, uma outra renascença, não da alta cultura, mas da cultura popular, a renascença vista pelo prisma dos leitores, dos pobres, dos pícaros.
A renascença como a conhecemos, é a renascença de quem?!
A escrita, no geral, é muito boa, dando espaço até para boas imagens, frases e metáforas. A bibliografia, é extensa. Deixo algumas passagens e notas, em livre tradução:
— "a carne da casta pode vir a ser o veneno da classe"
— No Enchiridon de Erasmus, para retratar uma nova maneira de viver: "encorajemo-nos a adquirir uma propriedade; se não tivermos nada não seremos capazes de viver (...)" é A tal da ascensão da propriedade privada indissociável ao surgimento do gênero romanesco.
— "No limiar da sobrevivência, todo trabalho mal-pago é melhor que nenhum-trabalho; e a narrativa picaresca rascunhava cenários de completa miséria onde qualquer trabalho que tornava a sobrevivência possível era visto como uma benção."
— Lázaro garante uma renda estável em troca da depreciação moral, ele troca o matrimónio pelo patrimonio. A sombra do picaresco é tanto uma paródia tanto das classes quanto do sistema de castas.
— "Não há nada em nossos corpos que não tenha sido outra coisa ou não tenha uma história para contar. (...) Nossas meias são lenços mas já foram toalhas, e antes disso, camisas, descendentes de lençois, e que no futuro talvez se tornem papel."
— “O foco do picaresco na imanência e na topografia da existência levanta uma questão. Quando a vida é reduzida ao cotidiano, a narração também deve esmorecer? Ou ela ainda deve operar sob um disfarce que os tradicionais conceitos de mimésis descartam como irrelevantes?"
— O picaresco explora bastante bem a relação entre a fome, a linguagem, e os aspectos sociais; o estômago vazio modula tudo, inclusive a mimésis, a presentação, que até virtualmente o alimenta; órgão utilizado para a fala, afinal, é o mesmo por onde nos alimentamos.
- [Vive-se em] Uma sociedade onde a obtenção de alimento exausta a maior parte do potencial humano.
- "Cavalaria Villana ou a baixa nobreza, cujas posses comumente não excediam um cavalo e uma armadura"