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fevi 's review for:

4.5
challenging dark emotional reflective sad tense medium-paced
Plot or Character Driven: Character
Strong character development: Yes
Loveable characters: No
Diverse cast of characters: Yes
Flaws of characters a main focus: Yes

A terceira vida de Grange Copeland é um livro de muitas camadas. É um outra obra-prima de Alice Walker sem sombra de dúvidas. A forma como ela trabalha assuntos pesados como violência física, racismo, abandono parental, violência contra mulher, abuso, entre todos outros é de totalmente esclarecedor. O seu texto ao mesmo tempo cruel tenta em certa medida mostrar o caminho tranquilizador. A vertente que o ser humano precisa espelhar-se. 

No livro acompanhamos a vida Grange Copeland, de seu filho Brownfield Copeland e de sua neta Ruth Copeland. No início vemos que a relação de Grange com seu filho não é das melhores. Brownfield não se amado e nem respeitado pelo pai e no decorrer da narrativa acaba sendo maltratado e abandonado. Brownfield cresce e começa a reproduzir todo tipo de violência que presenciou e sofreu na sua infância e adolescência. Ele vai além disso e torna-se uma pessoa perversa mesmo quando existe a possibilidade de receber algum tipo de amor ou carinho. Mas para frente acompanhamos Ruth e seu avó Grange e a relação entre eles. Além da tentativa de Grange em redimir-se de todas as suas ações e defeitos que impactaram de forma significativa a vida de toda a sua família e descendentes. 

Walker trabalha muito com a sujeição do homem negro em relação aos brancos. Aqueles que não conseguem superar a violência do racismo e por consequência acaba violando os seus. Os homens negros dessa história acabam em certa medida permitindo que os brancos denominem como os eles devem existir. Claro que estamos em um contexto de uma violência racista, mas Walker discute justamente sobre aqueles que não conseguem superar essa sujeição e com isso acaba criando um ódio que extrapola. É compreensível, mas não justificável. Nas palavras de Walker aquele que deixa "alma" ser contaminada acaba tornando-se violento com seus próprios pares. É isso que lemos ao longo da vida de Brownfield que foi tão violentado, mas que não conseguiu manter a sua alma. Dessa forma acaba tornando-se, para mim, um dos personagens mais destetáveis e violentos da literatura. Há inúmeras passagens dos seus atos violentos. 

Grange que foi parte do contexto que criou um Brownfield violento tenta se redimir com o filho, mas não consegue. Já um homem idoso e conhecedor da vida atenta aos seus atos do passado e tenta, por mais difícil que seja, mudar de pensamento e agir de maneira diferente. Claro que nem sempre ele consegue. Depois de uma tragédia ele começa a criar a neta Ruth. Nesse momento, o seu objetivo é fazer tudo de diferente que fez com o seu filho. Ele não quer deixar que ódio de Brownfield contamine ainda mais a vida de Ruth. Não quer que ela perca a sua alma. Grange tenta quebrar o ciclo de violência que um dia ele não conseguiu destruir enquanto pai de Brownfield. 

O final do livro para mim apesar de inesperado é bem satisfatório. Acredito que Walker quis mostrar o que acontece quando perdemos a nossa alma e não conseguimos quebrar as barreiras das sujeições criadas pelos brancos. É uma obra difícil, mas poderosa. É triste e um alerta para nós, pessoas negras. Não devemos agir como os brancos desejam e nem permitir que o poder deles faça que quebremos nossos laços. Não devemos direcionar o nosso ódio para a nossa comunidade. É preciso usar essa energia lutar e quebrar círculos violentos.

Recomendadíssimo!