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4.0

4,5

É a primeira obra do Lima Barreto que leio. Essa edição da Cosac Naify é simplesmente incrível. O trabalho e os textos de apoio são primorosos e nos ajudam a conhecer não só um pouco do autor, mas também a conhecer um pouco mais sobre as suas intenções.

Diário de Hospício abre o conjunto dessa edição. É uma coletânea de escritos que Barreto escreveu no período em que esteve internado em um Hospital para Alienados. São relatos sobre o funcionamento dos alojamentos, dos tratamentos que recebia e como os outros internos eram tratados. Também há descrições sobre os que ali conviviam com ele não só pacientes, mas também enfermeiros, médicos e ajudantes. Lima Barreto inúmeras vezes compara o manicômio como uma prisão. Ali funciona como uma prisão por muitas vezes privar os pacientes de serem tratados como seres humanos. Apesar disso há também informações sobre como alguns médicos e enfermeiros faziam de tudo para que os internos fossem bem tratados.

Toda essa escrita me cativou bastante. É uma escrita que inspira, mas também nos faz juntamente com o que ele expõe questionar inúmeros problemas de uma sociedade problemática. Já naquele tempo ele questionava a violência policial, o desinteresse da sociedade sobre as questões humanas, os maus tratos as pessoas com problemas mentais e a exclusão delas. Um livro que foi escrito há quase cem anos ainda consegue conversar com o Brasil atual. Sinal de que estamos caminhando a passos lentos ou o pouco que conquistamos está sendo tirado da população que precisa. Prova disso é que o campo da saúde brasileira ligada a psicologia está sendo desmontada pelo governo Bolsonaro. É lamentável que mudanças positivas foram conquistadas pós-escrita de Lima Barreto esteja sofrendo com uma ingovernabilidade ignorante e com o intuito real de destruição.

Para além disso, há em Diário de Hospício, inúmeras reflexões existenciais. Barreto narra e questiona o amor quase inexistente pela mulher, a tristeza de não conseguir viver plenamente daquilo que gostava de fazer (escrever suas ficções e refletir sobre a humanidade), o medo de não seguir outro caminho mais promissor, não acreditar no seu potencial como alguém criativo. Esses questionamentos que nos é tão presente e pulsante já eram retratados há anos. Isso só me dá a certeza de que os problemas ainda são os mesmo só a sociedade e a tecnologia que muda de tempos em tempos.

Logo após os relatos da sua existência em mais de uma vez no hospital para alienados chegamos a obra ficcional inacabada baseada nesses momentos: O Cemitério dos Vivos. Preciso dizer que essa parte não me apeteceu muito por conter praticamente a mesma coisa o livro anterior. Há pouquíssimas diferenciações. Existe ali somente o necessário para introduzir os principais personagens e os seus relacionamentos. Quando Barreto começa a parte em que o personagem vai para o hospício as descrições são praticamente as mesas das suas anotações. Para mim, o Diário cumpriu o papel denunciante e questionador de toda a situação das pessoas que viviam em manicômios. Mas ali e nos textos seguintes crônicas e contos é possível captar o poder da sua escrita mesmo que tenha soado extremamente repetitivo.

Barreto é um homem instigante. Essa obra fez com que eu me interessasse mais por ele. O Barreto escritor e o Barreto homem. Tanto que irei atrás de aluma biografia que possa me mostrar mais quem foi este homem. Por fim, indico esse livro para todo mundo.