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rolandosmedeiros 's review for:

Good Country People by Flannery O'Connor
4.0

"The girl had taken the Ph.D. in philosophy and this left Mrs. Hopewell at a complete loss. You could say, “My daughter is a nurse,” or “My daughter is a schoolteacher,” or even, “My daughter is a chemical engineer.” You could not say, “My daughter is a philosopher.” That was something that had ended with the Greeks and Romans."


Primeiro da Flannery que li. Exemplifica bem o que eu disse no A Good Man is Hard to Find. O enredo, aqui, é ainda menos importante, e o encaminhamento para o desfecho real só se dará nas últimas páginas. Antes, ela te segura só com a narração, com as metáforas e com o rol de personagens que desfilam no conto. Só para marcar: uma das coisas mais malucas e interessantes que li nesses últimos meses.

A narração abre com o amanhecer numa residência, o despertar da Sra. Hopewell (que tem deficiência visual) e a chegada da senhora Freeman, contratada por ela para ajudar na casa. Ouvira, antes de contratar a mulher, um aviso de que a Freeman era "a mulher mais escandalosa jamais vista", mas naquela manhã já haviam se passado quatros anos desde então e ela não se importava mais com o jeito da mulher.

A Sra. Hopewell, a dona da casa, era uma mulher que com "os olhos de um gélido azul, parecia ter adquirido a cegueira por querer e se mantinha cega por vontade própria". A narração, aqui, é muito mais explicitamente irônica que nos outros contos. É uma terceira pessoa moderna, vai e vem no tempo para apresentar as outras personagens, entra em tais e tais personagens, revela as filhas da Freeman (a ajudante) e suas platitudes; a filha da Hopewell, uma mulher de meia-idade, e seu niilismo por estar vivendo naquele lugar, naquela fazenda, presa com a mãe. (Um niilismo que vai ser desmontado de um jeito que só a Flannery é capaz de fazer)

A ironia do título do conto bate a todo tempo. A filha — Joy —, ainda por cima tem uma perna de prótese por ter levado um tiro quanto tinha dez anos (!). "Eu estou aqui, é assim que eu sou". O mau humor dela é totalmente compatível com a situação, porque é entre aspas forçada a trabalhar no campo, mesmo com uma perna só, ajudando a mãe, no mesmo lugar onde aconteceu o acidente que a fez perder a perna. Tudo isso é um misto de motivos para a sua infelicidade. A ponto de mudar de nome, de Joy (Felicidade) para Hulga, porque queria "o nome mais feio que houvesse em qualquer língua" para combinar com aquilo que ela sentia por dentro.

"Hulga ouvira a Sra. Hopewell dar detalhes daquele acidente, como a perna foi literalmente despedaçada, e como a menina se manteve consciente de tudo"


O narrador vai e volta entre as personagens, conta cenas antigas, e então as narra como se estivessem ocorrendo naquele exato momento, cada vez revelando um pouco mais. Um desses ótimos parágrafos traz a tona o tema do conto ao mesmo tempo que ilustra a ironia e o contraste entre as personagens — é da onde eu tirei a citação da abertura; outros, pintam momentos tão legais de ser ler quanto, ainda que não sejam densos ou impactantes. O fato da Hulga/Joy gostar de ler "e olha[r] para os homens jovens e bonitos como se conseguisse farejar a burrice deles" [prenúncio do final do conto]; a cena da Sra. Hopewell, que depois de abrir aleatoriamente um livro da filha, e ler uma passagem científica sobre o nada (ou o vácuo), "fecha o livro rapidamente e sai correndo do quarto tremendo e suando, como se tivesse apanhado uma febre".

O conto também é uma aula de como fazer boas digressões, como fazer esse movimento narrativo funcionar, porque a gente fica a todo tempo indo e voltando, correm cenas, diálogos, qualidades das personagens são reveladas, a relação entre eles, o status daquele ambiente, enquanto as personagens permanecem na cozinha, papeando ou fazendo um café; você nem sabe, na verdade, qual é a cena principal ou onde ela quer chegar, até o último momento da narrativa. A cena principal se engatilha, mais uma vez, dentro de uma digressão/flashback. A mãe olha para a filha de pé, esperando a água ferver, e se lembra da visita que receberam no dia anterior de um jovem vendedor de bíblias.

Eu não vou entregar tudo, mas aqui há uma quebra, e as personagens agem como mais que personagens, agem com vida. Depois daquele papo repetitivo de vendedor, de falarem bastante sobre o bom povo do campo, sobre como ele tem uma doença terminal e precisa vender aquelas bíblias (que fica claro que a família sabe que é mentira), a Hulga interpela o vendedor no quintal, antes de ir embora, e, surpreendentemente, a distante e triste e apática Hulga, marca de encontrá-lo outra hora. Tanto a gente quanto as outras personagens da casa ficam sem entender.

As cenas seguintes são as mais memoráveis do conto, ela mente a idade pra ele, e os dois personagens estranhíssimos saem andando juntos às dez na noite para se encontrar. Uma mulher de trinta e pouco anos, formada em Filosofia mas vivendo na fazenda da mãe (no sul profundo) e com uma prótese, e um vendedor de bíblias que parece meio mentiroso meio fajuto, que diz também ter o coração fraco e que tem pouco tempo de vida. E... eles se beijam. O primeiro beijo da vida de Hulga.

E não, aqui ainda não é a maior surpresa do conto, nem o beijo nem a reação de Hulga, que também é muito boa: ela beija pela primeira vez e se sente maravilhosamente bem, tentar parecer que aquilo foi uma "experiência trivial", e quando termina o beijo, ela se vira e continua andando na frente dele, que ficara parado, estatelado no meio do caminho, enquanto ela segue como se nada tivesse acontecido "saying nothing, as if such business, for her, were common enough".

E sim, o final consegue ser ainda mais surpreendente que isso, com diálogos do tipo (bateu a preguiça de traduzir, vai no original):

“We are all damned,” she said, “but some of us have taken off our blindfolds and see that there’s nothing to see. It’s a kind of salvation.”
The boy’s astonished eyes looked blankly through the ends of her hair.
“Okay,” he almost whined, “but do you love me or don’tcher?”


Aqui que se encaixava meu comentário antigo: A sequência de estranheza, a revelação da moça é "olha... sinto dizer para você, mas eu tenho trinta anos e me formei em filosofia... tenho muitas extensões..." e o cara, "desculpa amor, a maleta com a biblia fica durante o sexo...", e ele quer uma prova de amor.... quer que ela mostre todos os detalhes da prótese pra ele... e ele fica brincando com a prótese… e o final! o final! Só lendo mesmo.

Acho que gostei ainda mais do conto escrevendo sobre ele aqui. A ironia do título, percebe-se, está tanto na caracterização das personagens, das opiniões batidas e observadas com distância pelo narrador em relação às senhoras, como também pela posição que se coloca a Hulga e a queda dela no fim, junto da revelação de quem (ou o que) é o tal vendedor de bíblias. Contão!


Good Country People — ✲ 4.5/5.0
Conto
Lido no Original.
Trad. livre dos trechos.
Outros Comentários: A Good Man is Hard to Find