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3.0

Machado e Borges: Clássicos e Formativos

Um ensaio que é na dose certa interessante e apelativo. Felizmente vai além do caráter puramente formativo do título, na linha do Antônio Cândido, e da pura historiografia, chegando, inclusive, a medir lado a lado o texto destes dois grandes autores e mostrar semelhanças interessantes que colocam esses dois grandes autores em consonância sem cair nunca naquela palavrinha perigosa. A graça é tentar tatear para entender como os dois chegaram em lugares próximos vindo de contextos tão diferentes: uma Buenos Aires que fervilhava literatura e um Brasil que na época do Machado tinha um índice baixo de leitores e alfabetizados.

Em Brás Cubas há pistas de que Machado enveredou por onde enveredaria Borges no seu Pierre Ménard; em "A Chinela Turca" de Machado há a mesma vertigem onírica de "El Sur"; de novo em Brás Cubas, um delírio de Brás o coloca num mesmo plano que Carlos Argentino joga Borges (personagem) n' "O Aleph":

Se quisermos fazer uma pequena brincadeira espacial, fiquemos com esta, para distinguir Brás e Borges, o delírio que começa no lombo de um hipopótamo e aquela visão que começa debaixo da escada: Brás viu tudo não em um ponto do universo, mas a partir de um ponto, o alto de uma montanha, de onde tudo lhe ficou visível; Borges viu tudo a partir de um ponto, que era a posição obrigatória ensinada pelo dono da casa, e também tudo em um ponto, “una pequeña esfera tornasolada, de casi intolerable fulgor”, com um diâmetro de “dos o tres centímetros”. É quase a mesma situação, mas Brás descortina uma paisagem vasta diante de si — o que sim é igual é a concentração das coisas, dos feitos humanos, dos sentimentos, das recordações, no tempo, mais do que no espaço: a simultaneidade, que está inscrita na obra dos dois pela via de um delírio, de uma visão mirífica, que solapa o realismo habitual, vizinhando com o discurso do fluxo da consciência mas permanecendo no campo controlado do discurso racional, que permite a ironia.


Essas aproximações e leituras são o ouro desse ensaio. Sei que o Machado não precisa disso, mas é um bom jeito de torná-lo apelativo a outros olhos, possibilita outros primas de leitura. Eu, por exemplo, li Borges por prazer antes de ler Machado, que era para mim só um clássico matéria de escola. Se tivesse me deparado com esse ensaio antes eu teria lido o Machado antes. E sim, há um problema enraizado aí, mas o assunto é longo.

O Ensaio, no entanto, não se fecha completamente em si, culminando num outro: Poe e Machado, que pelo que li, tem outros objetivos (por que razão Poe e Borges, consequentemente, foram um sucesso na Europa, e o Machado não, se há méritos de sobra para tal?). Ps. hoje em dia ele tá fazendo sucesso por aí com a tradução Flora Thomson-DeVeaux.

No entanto, tornando ao grosso do Ensaio, para chegar no dorso forte dele é preciso passar por cinquenta e poucas páginas não ruins, mas menos interessantes, onde a análise dos textos fica em segundo plano para a história: a época em que ambos se inseriam, a relação com a política, a juventude e a maturidade, as referências, a relação com o nacional e o internacional em questão de literatura, etc. Não é tão longo nem excessivamente resumido a ponto de incomodar, para um ou para outro lado cumpre, afinal, a função necessária para atingir o objetivo do ensaio: ressaltar o caráter formativo de ambos para a literatura de seus respectivos países. Não posso, portanto, criticar o texto por isso, mas apenas digo que o grosso do ensaio não é tão interessante quanto as pequenas partes que elogiei aqui.

Por alto, também interessante, são as visões de ambos com a literatura de seus países, questões de rigidez de temas nacionais, a obrigação de escrever e pintar uma cor local que incomodam Machado e Borges. Machado rebatendo os temas indianistas e dizendo que o homem tem de escrever temas universais ao mesmo tempo que é fruto de seu país e de seu tempo. O Borges, algo na mesma linha, batendo os nacionalistas que queriam limitar o exercício poético da mente platina a uns pobres temas locais, como se os argentinos só pudessem falar dos pampas, dos subúrbios e não do universal. Tem também uma linha quase cômica no ensaio, em que o Fischer aproveita cada oportunidade que tem para arremessar pedras na direção dos Andrades e do Modernismo Paulista. Aqueles outros pontos que toquei também são elucidativos: a diferença social de ambos, para quem escreviam, a diferença entre as pessoas alfabetizadas naquela Buenos Aires de Borges e no Rio de Janeiro de Machado, etc.

Para finalizar, acho necessário sublinhar o finalzinho do ensaio, vai soar meio deslocado aqui, e não tem o mesmo objetivo que vou dar a entender, mas o Fischer cita o Borges “El hecho es que cada escritor crea a sus precursores. Su labor modifica nuestra concepción del pasado, como ha de modificar el futuro”. . É extremamente interessante pensar assim, no contexto que o Borges disse, do "Kafka y sus precursores". Mas, nesse caso aqui, fiquei com um gostinho de "Borges criou esse lado da obra do Machado" que é meio estranho de pensar. Ou talvez seja assim mesmo, já que a gente usa Borgiano assim como usamos Kafkiano e isso não diminua em nada o Machado, mas é estranho de ouvir.

Ps.2: eu li e escrevi. Isso antes de conhecer o Fischer no Sarau Elétrico. Meu idôlon agora.